sábado, 20 de novembro de 2010

Puxada de Rede - Antonio Gomide


Antonio Gomide
Puxada de Rede
72 x 100 cm Óleo sobre telaAss. Inf. Dir. déc. 1950

Na obra Puxada de Rede, Antonio Gomide transforma o gesto cotidiano dos pescadores em uma coreografia de força, ritmo e ancestralidade. Cada figura, cada linha, cada dobra da rede parece pulsar com a energia de um Brasil que se constrói no encontro entre o corpo e o mar. A cena, embora simples em sua narrativa, é monumental em sua expressividade: o trabalho coletivo torna-se símbolo, o movimento torna-se linguagem, e o esforço humano se converte em poesia visual.

Gomide organiza os corpos como se fossem parte de uma engrenagem viva. Os pescadores, inclinados, tensionados, formam uma sequência quase musical - uma cadência que acompanha o peso invisível da rede e o chamado profundo das águas. Os músculos delineados, os gestos precisos, a inclinação dos troncos revelam não apenas o esforço físico, mas a intimidade entre esses homens e o mar que os sustenta. Há uma dignidade silenciosa em cada postura, uma entrega total ao trabalho que molda suas vidas.

A rede, protagonista silenciosa, atravessa a composição como um tecido de destino. Ela une os pescadores, conecta o mar à terra, e simboliza tanto a esperança quanto a incerteza. Gomide a representa com linhas firmes, quase geométricas, que contrastam com a organicidade dos corpos - como se o artista quisesse destacar a tensão entre o natural e o construído, entre o gesto humano e a força da natureza.

A paleta de cor , contida e terrosa, reforça a materialidade da cena. Não há excessos, não há ornamentos: tudo é essencial. O artista privilegia o desenho, a estrutura, a forma, criando uma obra que se aproxima do modernismo brasileiro em sua busca por síntese e clareza. Ainda assim, há calor, há vida, há movimento - uma vibração que escapa das linhas e se espalha pelo espaço pictórico.

O mar, embora não representado de forma literal, está presente em cada detalhe: na tensão dos braços, na inclinação dos corpos, na expectativa que paira sobre a cena. É como se a água estivesse logo ali, fora do quadro, chamando, prometendo, desafiando. A Puxada de Rede não mostra o peixe, não mostra o resultado - mostra o instante anterior, o momento em que tudo é possibilidade. É a imagem da espera, da luta, da comunhão entre homens e natureza.

Assim, Gomide transforma o trabalho dos pescadores em metáfora da própria condição humana: puxamos redes invisíveis todos os dias, movidos pela esperança de que algo virá do mar da vida. A obra celebra o coletivo, a resistência, a beleza do gesto repetido que sustenta comunidades inteiras. É um tributo ao corpo que trabalha, ao mar que oferece, e à arte que eterniza o instante em que o esforço se torna imagem.



CONTEXTO

A inspiração cubista do trabalho inicial de Gomide se opõe às fases posteriores , caracterizadas por uma abordagem mais espontânea e por um repertório mais diversificado (porém dominado pela figura humana). Atraído de início pelas soluções formalistas , mais tarde tende a dar vazão à sua mentalidade profundamente popular. Se se pode registrar uma certa dispersão nos objetivos de Gomide, do ponto de vista estilístico e psicológico, sua obra é investida de um clima muito pessoal, e que trouxe uma contribuição vital à arte brasileira da primeira metade do século XX.


A Puxada de Rede representa não só a relação que o pescador tem com o mar, onde ele praticamente vive toda a sua vida, mas com a sua família e com a sua religiosidade, em especial com Iemanjá que no sicretismo é a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes. Na cadência do atabaque, cantigas contando histórias de pescadores, pedindo por uma boa pesca, uma viagem tranquila e por uma volta segura, são cantadas enquanto a rede de arrasto é trazida de volta a praia.


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