segunda-feira, 6 de março de 2017

Moema - Victor Meirelles (1866)

Moema - Victor Meirelles - imagem: googele.com

No primeiro plano, o corpo de Moema jaz inerte à beira-mar, estendido sobre a areia, banhado pelas águas que chegam suavemente. Ela está nua, em pose serena e quase adormecida: cabeça tombada para trás, pescoço erguido, olhos fechados, uma mão sobre o ventre e a outra estendida. A beleza do corpo é retratada com a harmonia e o ideal de perfeição herdado da pintura acadêmica europeia - mas sem perder a força e a presença da mulher brasileira. Uma delicada tiara de penas cobre-lhe o ventre, equilibrando o nu com pudor e graça. Os cabelos negros, longos e espalhados na areia, parecem vivos - o único elemento que ainda pulsa, em contraste com o corpo imóvel.

Segundo a lenda literária, Moema era uma das mulheres do navegador português Diogo Álvares (Caramuru). Quando ele parte para a Europa levando consigo apenas Paraguaçu, irmã de Moema , ela lança-se ao mar tentando alcançar o navio. Nada o suficiente para falar com ele, mas não o suficiente para permanecer viva: morre de amor e desespero, e suas águas devolvem o corpo à praia. Meirelles não pinta o afogamento: pinta o repouso final, a quietude da morte.

A composição é dominada pela linha longa e curva do corpo, que atravessa a tela da esquerda para a direita, criando ritmo e suavidade. A luz quente e dourada, de fim de tarde, banha o corpo de Moema, modelando suas formas com suavidade, enquanto o mar e a paisagem ao fundo se desvanecem em tons mais frios e escuros. O céu, em tons de ouro, rosa e azul-claro, reflete-se na água calma - como se a própria natureza chorasse em silêncio. Ao longe, quase invisível no horizonte, um pequeno navio afasta-se: é a caravela que levou embora seu amante e sua esperança.

 A Paisagem e o Simbolismo

Ao fundo, a costa brasileira se estende com matas densas e altas árvores, banhada pela luz poente. A natureza é bela, serena, imensa - e indiferente à dor humana. Moema está imersa nela: a terra, a água e o corpo parecem se fundir numa só respiração. A cena não é apenas a morte de uma mulher: é a alegoria de um destino. O navio que parte para a Europa e o corpo que fica abandonado na praia representam, em nível mais profundo, o destino do indígena diante da colonização: aquele que resistiu, que amou com fúria e não se submeteu - e que, por isso, foi deixado para trás, esquecido à beira-mar.

Moema foi a primeira grande obra da pintura brasileira a ousar retratar o corpo nu de uma indígena com a mesma dignidade e perfeição formal que a arte europeia reservava a deusas e musas. Meirelles uniu a tradição clássica - a pose lembra deusas gregas e romanas - ao tema genuinamente brasileiro. Não há vulgaridade nem exotismo barato: há beleza, serenidade e, acima de tudo, tristeza. A nudez não é sensualidade: é desamparo. Moema está nua porque perdeu tudo - inclusive a vida.


Meirelles não pintou apenas uma lenda: pintou a alma do Brasil que ficou à beira-mar. O corpo belo e abandonado, o navio que parte ao entardecer, a terra imensa e silenciosa - tudo diz a mesma coisa: aqueles que amaram esta terra e não aceitaram ser submetidos foram deixados para trás, embebidos pela própria água que os viu nascer. Moema morre de amor - mas também morre de história. E naquela praia, banhada pela luz do poente, permanece para sempre: bela, nua, inteira - e sozinha.

Ficha Técnica

Autor: Victor Meirelles (1832–1903)

Ano: 1866

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 130 × 196,5 cm

Localização: Museu de Arte de São Paulo (MASP)

Origem: Inspirada na personagem homônima do poema épico Caramuru (1781), de Frei José de Santa Rita Durão

Contexto: Pintura histórica e indianista, sem encomenda prévia; exposta pela primeira vez na Academia Imperial de Belas Artes, onde recebeu medalha de ouro

 



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