sábado, 18 de agosto de 2012

Almoço na Relva (1863) - Édouard Manet

Almoço na Relva , 1863, Manet. Óleo sobre tela, 214 X 270 cm. Museu do Louvre, Paris, França.


Édouard Manet (Paris, 23 de janeiro de 1832, Paris — 30 de abril de 1883, Paris) foi um pintor e artista gráfico francês e uma das figuras mais importantes da arte do século XIX. Pertencia a uma família rica da burguesia parisiense. Seu realismo não tinha intensões sociais: ao contrário, chegava a ser aristocrático. Sua carreira foi marcada por alguns desafios aos críticos conservadores. O maior deles aconteceu em 1863, com a tela “Almoço na relva”(acima) que, na época causou grande escândalo por representar uma mulher nua em companhia de dois homens elegantemente vestido.

A pintura acima teve como nome original  Le Déjeneur sur l´Herbe. Foi apresentado publicamente no Salão dos Independentes, realizado em Paris em 1863, e o seu título inicial era Le Bain (O Banho).Causou certo escândalo na época por trazer uma mulher nua entre dois homens vestidos. Suzanne Leenhoff (sua mulher) e Victorine Meurent (sua modelo preferida) posaram para a composição da mulher nua, sendo o corpo de Suzanne e o rosto de Victorine.O quadro foi considerado uma "imoralidade, um atentado ao pudor".Os críticos não pouparam críticas, chegando a dizer que Manet devia aprender a desenhar.

Mas analisando o quadro  num primeiro plano (canto inferior esquerdo) vemos uma natureza morta de cores fortes definida como as roupas da mulher nua,seguida dos três personagens sentados ( a mulher nua e os dois homens vestidos); ao fundo uma mulher se banha no riacho. 

Nass primeiras pinturas, Manet,  abandonou o método tradicional de sombras suaves em favor de contrastes fortes e duros, causando um clamor de protestos entre os artistas conservadores. Em 1863, os pintores acadêmicos recusaram-se a exibir as obras de Manet na exposição oficial – o Salon. Segue-se uma onda de agitação que levou as autoridades a expor todas as obras condenadas pelo júri numa mostra especial que recebeu o nome de ‘Salon dos Recusados’. O público afluiu principalmente para rir dos pobres e desiludidos principiantes que se haviam recusado a aceitar o veredito dos seus superiores."Manet pintava diretamente ao ar livre, observando cuidadosamente os efeitos que a luz produzia sobre os objetos e sobre os espaços, transmitidos através de requintados e afirmados contrastes de claro escuro, de cores vivas e de pinceladas rápidas e espontâneas. Esta exaltação dos valores cromática e lumínica transforma o quadro numa obra pioneira e revolucionária, prenunciadora dos princípios estéticos do movimento impressionista.Esta pintura acabaria por ser exposta no Museu do Louvre, em Paris."

 Não podemos deixar de perceber que o francês Édouard Manet (1832-1883) foi um nome fundamental do período, fazendo a ponte do realismo e do naturalismo para um novo tipo de pintura que levará ao impressionismo. Ele retratava a realidade urbana sem muito da carga ideológica do realismo. Influenciou os impressionistas, assim como foi por eles influenciado.

 Veja mais sobre Manet nos videos abaixo:




Fonte: Wikipedia, Livro Literatura e Arte (Nicolla) e Infopedia

terça-feira, 17 de julho de 2012

Os camponeses comendo batatas - Van Gogh - 1855

Vincent Van Gogh - Os camponeses comendo batatas - óleo em tela (1855) - 82 cm × 114 cm     
"Os Camponeses comendo batatas (Aardappeleters em neerlandês) é um quadro do pintor Vincent van Gogh, terminado em abril de 1885.
Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, desenvolvida nos Países Baixos, sob influência do realista francês Millet. Van Gogh fez releituras de Millet, e também estudou desenho, anatomia e perspectiva em Bruxelas, complementando sua formação com leituras sobre o uso e o comportamento das cores.Nessa época, desenhou e pintou muitas paisagens neerlandesas, cenas de aldeia.

 Em Nuenen, pequena cidade neerlandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os Comedores de Batata resume esse período. Assim como os pintores realistas, ele falou sobre a miséria e retratou a desesperança dessa gente humilde. Ele dizia que os camponeses deviam ser pintados com suas características rudes, sem embelezamento, ponto em que criticou e se diferenciou de Millet.

Van Gogh salientou os traços grosseiros das mãos e das faces dos trabalhadores da terra. Em busca de intensidade dramática, explorou a potencialidade expressiva dos tons escuros, da luminosidade barroca e do pincel nervoso. Tais características seriam transformadas radicalmente a partir de sua ida a Paris, no mesmo ano.Ele viveu lá por alguns anos. " (Fonte: Wikipédia )

Leia mais sobre Van Gogh   A  Q  U  I  e veja os videos abaixo:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os Construtores (1950) - Fernand Léger

Os Construtores - 1950 (óleo sobre tela)

      








Fernand Léger (1881-1955) antes de se tornar pintor era arquiteto e no ano de 1900 se mudou para Paris e lá passou a trabalhar como desenhista de arquiteturas.Mundialmente reconhecido como um dos mestres do século XX, Fernand Léger foi um dos mais destacados cubistas e o primeiro a experimentar a abstração.
 
"A enorme dimensão deste edifício foi astuciosamente representada através da técnica do corte da imagem, em cima e em baixo, de forma a parecer prolongar-se indefinidamente em ambas as direções. Acentuadas linhas verticais e horizontais demarcam os contornos das formas estruturais contra o céu azul, realizadas em intensas cores primárias, havendo aqui alguma evidência e influência do Cubismo.Os enormes trabalhadores que se assemelham a robôs, movimentando-se sobre as vigas, e as nuvens que passam, contrastam dramaticamente em forma e em cor com o esqueleto metálico do edifício em construção.(
 
Braços e pernas tubulares, como calhas ou chaminés. Rostos inexpressivos, não mais que um esquema de olhos, boca e nariz. Dos pintores do começo do século 20, Fernand Léger (1881-1955) foi provavelmente um dos que mais incorporaram em seus quadros a estética da vida industrial, a rudeza do trabalho mecânico, a textura das máquinas e dos materiais de construção. (Fonte: Blog Artemísia está viva)

 
LÉGER criou, a partir do Cubismo Sintético, uma linguagem pictórica que, segundo ele esperava, levaria a arte ao mundo do trabalho e do lazer do proletariado.
Formas vigorosas e claramente definidas, sugerindo máquinas, são apresentadas em cores enérgicas que dão uma nota de alegria e otimismo a um mundo mais habitualmente associado à fumaça e graxas. Assim, LÉGER não representa as misérias da classe trabalhadora, mas usa sua arte para celebrar o mundo do trabalho viril e vigoroso.

 Na opinião do crítico e historiador Giulio Carlo Argan, Léger "foi um admirador da pureza e simplicidade das imagens de Rousseau; foi um dos primeiros a se associar, em 1910, à pesquisa cubista; é, e se mantém por toda a vida, um homem do povo, um trabalhador que acredita cegamente na ideologia socialista, a qual ingenuamente associa ao mito do progresso industrial. Para ele, os objetos simbólico-emblemáticos da civilização moderna são as engrenagens, as tubagens, as máquinas, os operários da fábrica: sua finalidade é decorar, isto é, qualificar figurativamente o ambiente da vida com os símbolos do trabalho da mesma maneira que, antigamente, decorava-se a igreja com os símbolos da fé".


Fernand Léger explica que arquitetura se compõe de superfícies vivas e de superfícies mortas.
As superfícies mortas – parede nua – são as reservas de repouso e não se deve nelas tocar. Já as superfícies vivas – superfícies coloridas – devem ser postas à disposição da forma, do pintor e do escultor.

As cores: azul, verde, amarelo e vermelho, eram as preferidas, em tons fortes, retratavam as tensões do cenário da época.

Veja mais sobre a obra:

 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Mamoeiro (1925) - Tarsila do Amaral

O mamoeiro (1925) - Tarsila do Amaral

O mamoeiro (1925),  Tarsila retrata a paisagem brasileira com intenso colorido.

"Esta obra mostra o início da ocupação dos morros das grandes cidades. A simplificação e estilização das formas promovem certa relação com o cubismo.
Mostrando a vida simples, o dia a dia das pessoas ( roupas no varal), vizinhas que se visitam, mãe com filhos. É importante refletir sobre a mudança de hábitos das pessoas a partir da grande concentração de pessoas que hoje habitam os morros. Frutas e plantas tropicais são estilizadas geometricamente.

 Apesar de ter tido contato com as novas tendências e vanguardas, Tarsila somente aderiu às ideias modernistas ao voltar ao Brasil, em 1922. Numa confeitaria paulistana, foi apresentada por Anita Malfatti aos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Esses novos amigos passaram a frequentar seu atelier, formando o Grupo dos Cinco. Este grupo foi o mais importante da Semana de Arte Moderna de 1922.

Em 1924, em meio à uma viagem de "redescoberta do Brasil" com os modernistas brasileiros e com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, Tarsila iniciou sua fase artística "Pau-Brasil", dotada de cores e temas acentuadamente tropicais e brasileiros, onde surgem os "bichos nacionais"(mencionados em poema por Carlos Drummond de Andrade), a exuberância da fauna e da flora brasileira, as máquinas, trilhos, símbolos da modernidade urbana. A Antropofagia propunha a digestão de influências estrangeiras, como no ritual canibal (em que se devora o inimigo com a crença de poder-se absorver suas qualidades), para que a arte nacional ganhasse uma feição mais brasileira.

Tarsila do Amaral foi à representante do movimento Pau-Brasil que, subdividido nas fases construtivo, exótico e metafísico, representa o cúmulo da brasilidade, traduzida não somente em seus temas humanos e nacionais, como também nas cores vivas até então rejeitadas por uma academia retrógrada e passadista.
Seus tons, de intensidade e força absurdas, são reminiscências de infância da pintora nascida em Capivari, interior de São Paulo. Desde então, Tarsila adota de forma quase que rebelde e contestadora cada colorido excessivo para, assim, melhor representar um país-aquarela."

"O Mamoeiro   pertence à Fase Pau-Brasil. Nessa fase as pinturas de Tarsila exaltavam a natureza tropical, valorizavam a brasilidade, os tipos humanos como os caboclos e os negros, e a tranqüilidade das pequenas cidades" (.Fonte:http://fotolog.terra.com.br/mev:16 )
 Nesta fase a influência da escola cubista é marcante ,mas a diferença entre Tarsila e os outros pintores da época  reside no fato de que ela representa a temática de nosso país com cores fortes - ditas caipiras - que seus professores diziam ser de mau gosto desaconselhando-a a utilizá-las m sua obra. 


Saiba mais sobre Tarsila no vídeo abaixo:


sábado, 12 de maio de 2012

Perfume de Inverno - Adelina Jacob (2011)

Perfume de Inverno - Adelina Jacob (2011)
 Adelina Jacob formada em Letras ,pós graduada em Liguíistica e Literatura Brasileira e Artista Plástica contemporânea vem despontando no cenário nacional com suas xilogravuras e aquarelas participando de bienais e exposições no Brasil,bem como na Itália e neste mês na Irlanda do Norte em exposição esta que mostra obras de artistas de todo o mundo no Waterfront Hall de Belfast ( Reino Unido ) aberta em 03/05/2012 estendendo-se até 30 de maio.

 A Xilogravura é a arte de gravar em madeira. Primeiro o artista esculpe na madeira o que deseja desenhar, depois através das etapas a seguir se conclui o trabalho. Primeiro se faz a Matriz -  taco de madeira gravado com instrumentos de corte;em seguida a Entintagem - a tinta é colocada na área que não foi encavada através de um rolo e, depois disso a Impressão- transporte da imagem para o papel através de pressão a mão ou no prelo, ele imprime no papel o desenho feito.

Sua gravura acima  é resultado de pesquisas no campo dos perfumes e flores que vem fazendo há muito tempo." “ Perfume de Inverno” é uma xilogravura com técnica apurada , sua composição primorosa juntamente com a escolha das cores, devidamente estudadas e testadas definem a delicadeza do seu trabalho. Além de mostrar uma composição madura e equilibrada."(Beto Bertagna)

A gravura é uma técnica exigente, tanto na execução quanto na criação, pois ela pede disciplina e paciência. O resultado é a própria gravura que dita.Adelina Jacob foi uma das representantes do Estado de Rondônia na  5ª Bienal Nacional de Gravura OLHO LATINO , em maio de 2011.Foram selecionadas 243 obras de 147 artistas de várias regiões do país e,entre elas a de Adelina Jacob do Estado de Rondônia.
Detalhes importantes que fazem toda diferença na Xilogravura é o fato de que a área que é escavada na madeira é aquela que não receberá tinta e a imagem será impressa de forma espelhada. É importante gravar as letras ao contrário.Após feita a gravação da imagem passa-se uma camada de tinta na qual  é necessário utilizar um rolinho de borracha.É um trabalho que exige concentração,delicadeza e talento, coisa que não falta à alma sensível de Adelina Jacob em seus trabalhos xilográficos e nas suas aquarelas. Geralmente as xilogravuras eram usadas nas capas de cordel do Nordeste embora ainda naquela época fossem apenas arabescos usados nas pequenas tipografias nordestinas.Na atualidade vários são os xilógrafos de cordel que se destacam. O pesquisador Joseph M. Luyten, no ensaio "A Xilogravura Popular Brasileira e suas Evoluções", enumera os seguintes xilógrafos: Abraão Batista (Juazeiro); Ciro Fernandes (Rio de Janeiro); José Costa Leite (Condado); Marcelo Alves Soares (São Paulo); Minelvino Francisco Silva (Itabuna); Severino Gonçalves de Oliveira (Recife) e podemos acrescentar a esses grandes nomes Adelina Jacob (Porto Velho) que vem se destacando com um trabalho de sutileza ímpar, diferente dos grandes cordelistas mas com personalidade própria.

Vea alguns trabalhos de Aquarelas de Adelina Jacob   A Q U I

domingo, 15 de abril de 2012

O Enterro do Conde de Orgaz - El Greco -1586/88



Fonte/imagem: google.com

A História por Trás da Obra

Gonzalo Ruiz de Toledo foi Senhor de Orgaz - e não conde, pois a vila só seria elevada a condado em 1522. Homem piedoso e generoso, mandou reedificar e ampliar a igreja de Santo Tomé em 1300. Ao falecer em 9 de dezembro de 1323 (algumas fontes citam 1312), deixou em testamento uma doação anual de 2 carneiros, 8 pares de galinhas, 2 odres de vinho, 2 cargas de lenha e 800 maravedis para o pároco, os ministros e os pobres da paróquia.

Passados mais de dois séculos, em 1564, o pároco Andrés Núñez de Madrid advertiu os moradores de Orgaz sobre o descumprimento do legado. Ganhou a causa em 1569 e recuperou tudo o que havia sido retido. Para perpetuar a memória do benfeitor e também o milagre ocorrido durante seu enterro, mandou pintar o quadro e inseriu um epitáfio em latim aos pés da obra, relatando tanto o pleito quanto o prodígio celestial.
Em 1586, contratou El Greco - que morava nas proximidades - e estabeleceu com precisão a composição: "embaixo, o enterro terreno; em cima, a glória do céu".

 A Cena Inferior - A Terra e o Sepulcro

No plano terreno, o corpo do Senhor de Orgaz, revestido de brilhante armadura, é depositado no sepulcro com toda veneração. Descem do céu Santo Agostinho e Santo Estevão para realizar o ofício sagrado: um segura a cabeça, o outro os pés do defunto. Em volta, clérigos, cavaleiros e testemunhas observam em silêncio e profunda seriedade.

À esquerda, uma criança aponta para a túnica de Santo Estevão: é o filho de El Greco, Domenico, cujo nome e a data de 1578 aparecem escritos no papel que sai de seu bolso. Santo Estevão, jovem diácono e primeiro mártir, veste túnica ricamente bordada com cenas de seu próprio martírio. Santo Agostinho, de mitra e roupagem episcopal, tem o rosto inspirado no Cardeal Quiroga.

Entre os presentes, reconhece-se o próprio pároco Andrés Núñez de Madrid, que encomendou a obra, revestido com capa pluvial negra onde se vê a imagem de São Tomé. Outro clérigo, de costas, não acompanha o enterro terreno: contempla a alma que sobe ao céu.

A Cena Superior - O Céu e a Vida Eterna

Acima, abre-se o céu em luz e glória. No centro, Cristo resplandece de branco, como Juiz de todos, e ordena a São Pedro - que segura as chaves do Reino - que abra as portas à alma do fiel defunto. Ao lado, a Virgem Maria acolhe maternalmente a alma que sobe.

Um anjo conduz delicadamente a alma do Conde, representada como uma criança ou crisálida, elevando-a entre nuvens até a presença de Deus. Ao redor, em círculo de adoração, aparecem os bem-aventurados: apóstolos como São Paulo, Tiago Maior e São Tomé — padroeiro da igreja; e entre eles, o rei Filipe II da Espanha, incluído como sinal de devoção e reconhecimento. À esquerda, figuras do Antigo Testamento: Rei Davi com a harpa, Moisés com as Tábuas da Lei e Noé com a Arca.

Entre as nuvens, distinguem-se ainda outras figuras santas, numa visão em que as formas se alongam e se tornam etéreas - marca inconfundível do estilo de El Greco.



  Observe os personagens na cena acima:
     

Cena Inferior (Terra)

 Santo Agostinho e Santo Estevão: descem do céu para depositar o corpo no sepulcro — um segura pela cabeça, o outro pelos pés.

 O Conde de Orgaz: em armadura de aço polida, adornos ricos, centro da composição inferior. Sua alma é levada ao céu por um anjo.

 A criança no canto inferior esquerdo: retrato do filho de El Greco, Domenico. Aponta para a túnica de Santo Estevão; no papel que sai de seu bolso lê-se: "Domenico Theotocopúli 1578".

 Santo Estevão: jovem diácono, túnica com cena de seu martírio, primeiro mártir da Igreja.

 Santo Agostinho: bispo, mitra e rica vestimenta bordada; rosto baseado no Cardeal Quiroga.

 O pároco celebrante: Andrés Núñez de Madrid, identificado na capa pluvial com imagem de São Tomé.

 Outras figuras: sacerdote de costas contemplando a subida da alma (Pedro Ruiz Durón); portador da cruz (Rodrigo de la Fuente); cavaleiros e testemunhas em silêncio e solenidade.


AGORA OBERVE A PARTE CELESTIAL - ALTO DO QUADRO


Cena Superior (Céu) 


Cristo glorioso: vestido de branco, juiz de vivos e mortos, ordena a São Pedro que abra as portas do Paraíso.


A Virgem Maria: acolhe a alma com ternura maternal.

  • O anjo central: conduz a alma do conde - representada como uma criança/alma em forma de crisálida - entre nuvens até a presença de Cristo.

    São Pedro: com as chaves, em túnica amarela.

    Os bem-aventurados: à direita - São Paulo, Tiago Maior, São Tomé (padroeiro da igreja); aparece também Filipe II, rei da Espanha, como um dos salvos.

    Figuras do Antigo Testamento: à esquerda - Rei Davi com a harpa, Moisés com as Tábuas da Lei e Noé com a Arca.

    Grupo tênue: entre as nuvens, figuras que podem representar Lázaro e as irmãs Marta e Maria Madalena (ou São Sebastião)

    A ligação entre os dois planos: a alma é o elo que une terra e céu; a morte é passagem para a luz eterna.

     O quadro representa as duas dimensões da existência humana : embaixo a morte, em cima o céu, a vida eterna. El Greco plasmou no quadro o horizonte da vida frente da morte, iluminado por Jesus Cristo.

     


No detalhe o rosto de Orgaz
Concluindo:

O quadro une dois mundos num só instante: embaixo, a morte e o respeito dos homens; em cima, a vida eterna e a acolhida de Deus. A alma do Conde é o elo entre os dois planos - levada não sozinha, mas guiada por anjos, recebida pela Virgem e acolhida por Cristo. El Greco pinta assim a passagem da morte como nascimento para a luz eterna: o justo não desaparece - é acolhido. E a obra nos lembra: quando cumprimos o bem até o fim, somos esperados lá em cima.


Ficha Técnica

Autor: Domênico Theotocópuli, o El Greco (1541–1614)

Ano: 1586

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 480 × 360 cm

Localização: Igreja de Santo Tomé, Toledo (Espanha)

Encomenda: Pelo pároco Andrés Núñez de Madrid, para a capela funerária do Conde de Orgaz


sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Martírio de santo Estêvão - Rembrandt - 1625

Fonte Imagem: google.com -Rembrandt  - O Martírio de Santo Estêvão .1625

 
No primeiro plano, Santo Estêvão cai de joelhos, olhos erguidos ao céu, em prece. Veste rica túnica de diácono, vermelho carmesim com detalhes dourados e manto azul-claro. A boca entreaberta, o rosto sereno - não há medo, nem dor, mas visão e entrega. Ele vê o que os algozes não veem: ao alto, entre nuvens rasgadas, Cristo em glória recebe sua alma. O céu se abre só para ele; os demais permanecem cegos à luz divina.

Ao redor, os algozes erguem as pedras. Um homem, de túnica clara, prepara o golpe com ambas as mãos erguidas; à direita, outro já lança a sua; ao fundo, outros se preparam. Todos concentram força e fúria — e nenhum deles percebe o céu que se abre acima da vítima. O contraste não poderia ser maior: violência cega de um lado, visão serena de outro.

 O Olhar de Deus

A luz é o elemento mais poderoso da tela. Cai com força sobre o rosto e o peito de Estêvão, modelando suas feições com suavidade e brilho. O manto vermelho absorve e devolve essa luz com intensidade. Já os algozes permanecem em meia-sombra, seus rostos tensos e obscurecidos. A luz não é natural: é a luz do céu, que só o mártir contempla. Aqui já nasce o que seria a marca maior de Rembrandt: a luz como revelação espiritual, o claro-escuro que divide o mundo entre os que veem e os que não veem.

A composição forma um triângulo dinâmico cujo vértice é o rosto de Estêvão. Os braços erguidos dos algozes criam linhas que convergem para ele - e de lá, o olhar sobe ao céu. À esquerda, montado em cavalo escuro, Saulo de Tarso (que depois seria São Paulo) observa de forma imponente e distante, vestido de vermelho. É ele quem autoriza o suplício - e que, mais tarde, seria iluminado pela mesma luz que agora ignora. Sua presença confere peso histórico e solene à cena.

Ao fundo, entre a multidão, assentam-se as autoridades religiosas que condenaram Estêvão — observam em silêncio, sem intervir. Mais ao longe, ruínas de uma cidade antiga: o cenário se desfaz em névoa e luz, como se o mundo terreno já estivesse perdendo importância diante do momento sagrado.

A paleta de cor  é dominada por terras, ocres e vermelhos profundos, com o azul-claro do manto de Estêvão e o branco das túnicas em contraste. As pedras, as roupas, a pele - tudo é pintado com vigor e textura, típicos da juventude do artista. A tinta é aplicada com firmeza, sem excesso de detalhe, mas com força suficiente para dar peso e realidade à cena.

Rembrandt, com apenas 19 anos, pintou muito mais que um martírio. Pintou o momento em que a terra cega atinge e o céu ilumina e acolhe. Estêvão cai, mas não é derrotado: seus joelhos tocam o chão, mas seus olhos já estão no céu. As pedras podem ferir o corpo — mas não podem tocar a alma que vê Deus.

A mensagem da obra é esta: quando o mundo se volta contra quem testemunha a verdade, nem sempre a vitória está na força ou na defesa. Às vezes, a vitória está em continuar vendo, mesmo de joelhos. E em saber que a luz que nos cega aos homens é a mesma luz que nos acolhe no céu.


Com audácia de quem já compreendeu o mistério da luz, o jovem Rembrandt mostra: Estêvão morre apedrejado pelos homens - mas é recebido em glória por Deus. Os algozes erguem pedras; o mártir ergue o olhar. A terra o fere, mas o céu o abraça. E a luz que brilha sobre seu rosto é a prova: quem vê Deus não pode ser vencido pelos homens.


A Obra na Vida de Rembrandt

Pintada em 1625, quando Rembrandt tinha apenas 19 anos, esta é considerada a primeira obra de importância e assinada de sua carreira. Na época, vivia em Leida, sua cidade natal, onde havia nascido em 1606. Ainda não havia se estabelecido em Amsterdã (para onde se mudaria em 1631), nem conhecido a cena artística mais ampla. Era aluno de Pieter Lastman - pintor de cenas históricas e bíblicas em Amsterdã - e foi justamente com ele que aprendeu a composição de cenas narrativas, a expressão dramática e a pintura de figuras em movimento. Esta obra revela já a influência de Lastman, mas também a originalidade que o tornaria único.


O Contexto Bíblico e Histórico da Cena

A cena retrata o primeiro martírio registrado no Cristianismo, narrado nos Atos dos Apóstolos (7, 54–60). Santo Estêvão foi um dos sete diáconos escolhidos para assistir os apóstolos em Jerusalém. Homem cheio de fé e sabedoria, realizava grandes sinais entre o povo. Ao defender com coragem a mensagem de Cristo, foi acusado de blasfêmia e levado ao Sinédrio. Ali, com o rosto iluminado como o de um anjo, profetizou a chegada do Justo - Jesus - à direita de Deus. Indignados, arrastaram-no para fora da cidade e o apedrejaram.

A cena na pintura mostra exatamente o momento em que Santo Estêvão cai de joelhos, olhos erguidos ao céu, onde Cristo aparece em glória para recebê-lo. Seus algozes erguem as pedras cegos à visão celestial. Ao fundo, observa Saulo de Tarso - o jovem que autorizava o suplício e guardava as roupas dos apedrejadores - e que, anos depois, seria convertido por aquela mesma Luz que Estêvão contemplava.


 O Contexto Artístico e Religioso da Época

A obra foi pintada nos Países Baixos (atual Holanda), no século XVII — período de ouro da arte holandesa. Diferente da Europa católica, a Holanda era majoritariamente protestante. Isso moldou a arte de forma singular:
Rejeitava-se a imagem de santos como objetos de devoção, mas não a narrativa bíblica - as cenas eram lidas e refletidas, não adoradas.

Buscava-se a verdade humana e emocional nas histórias sagradas: não heróis distantes, mas pessoas de carne e osso, com sentimentos reais.

A luz não era apenas iluminação física: era símbolo da graça divina, da Palavra que ilumina os corações - uma ideia profundamente ligada à teologia protestante.

Rembrandt, embora não fosse calvinista praticante, respirava essa cultura: em sua pintura, a luz distingue quem é tocado por Deus de quem permanece nas trevas. Estêvão é iluminado; os algozes, não. A luz sobre o rosto do mártir não é natural - é a Luz de Cristo, que o mundo não vê.




Ficha Técnica

Autor: Rembrandt van Rijn (1606–1669)

Título: O Martírio de Santo Estêvão

Ano: 1625

Técnica: Óleo sobre madeira

Dimensões: 93 × 123 cm

Estilo: Barroco — fase inicial

Tema: Apedrejamento de Santo Estêvão, narrado nos Atos dos Apóstolos (7,54–60)

Observação: É considerada a primeira obra de porte assinada por Rembrandt, pintada quando tinha apenas 19 anos.