sábado, 1 de fevereiro de 2014

Metamorfose de Narciso - Salvador Dali

Metamorfose de Narciso -   Salvador Dali




Dados do Autor e da Obra 

Salvador Dalí (1904–1989) demonstrou desde a infância uma vocação precoce pelas artes plásticas. Em 1921, ingressou na Escola de Belas Artes de São Fernando, em Madri - instituição da qual foi expulso em 1926, pois declarou que nenhum de seus professores era competente o suficiente para avaliá-lo. Sua obra se destaca pela extraordinária combinação de imagens oníricas e surreais com apurada qualidade plástica; ao longo da trajetória, foi também influenciado pelos mestres do Renascimento.

A obra A Metamorfose de Narciso foi pintada em 1937 e é considerada uma das criações mais representativas da fase surrealista de Dalí.

OBRA E SIMBOLISMO

A obra é propositalmente ambígua. De um lado, vemos Narciso sentado à beira das águas, contemplando o próprio reflexo; de outro, a sua figura se confunde com uma forma de pedra, semelhante a uma mão petrificada, que segura um ovo do qual brota uma flor. Dalí constrói uma imagem dupla: o que parece ser o corpo de Narciso é, ao mesmo tempo, uma mão transformada em rocha. É essa metamorfose - a passagem da vida à pedra, e da pedra à nova vida - que dá título à obra.

O ovo: símbolo da vida, da germinação e do mistério do renascimento. Da casca rachada brota a flor de narciso - o novo que nasce da morte e da petrificação.

A rachadura na casca: alinha-se à sombra do cabelo de Narciso e à fissura na unha do polegar, reforçando o caráter petrificado e onírico da mão. A quebra pode ser lida como a morte da vaidade: o narcisismo se rompe, dando lugar a algo novo.

As formigas: escalam a mão de pedra. São um tema recorrente em Dalí - representam decomposição, mortalidade e tempo que corrói. O artista tinha pavor de formigas desde a infância, ao vê-las devorar uma lagartixa ferida; aqui, elas sobem em direção à flor, sugerindo que a nova vida também é ameaçada pelo tempo.

O cão e a carne: à direita, um cão devora uma carcaça. É o símbolo cru e direto da morte e da deterioração: aquilo que foi belo um dia, agora é apenas matéria que se consome.

As montanhas e o céu: ao fundo, forma-se um cenário de tons terrosos e áridos, com nuvens pesadas que anunciam tempestade. A paisagem inteira parece envelhecida, petrificada - como se o tempo tivesse parado ali.                                                                                                   

Dalí próprio explicou que a obra retrata a morte e a petrificação de Narciso. O jovem que se amava tanto se transforma em pedra: o amor a si mesmo o imobiliza, o endurece, o afasta da vida. Mas daquilo que parecia morte - da mão de pedra, do ovo rachado - brota uma flor nova e bela. A mensagem é paradoxal: a vaidade mata, mas dessa morte pode nascer algo mais verdadeiro e puro. A flor não é Narciso: é o que resta quando o narcisismo se desfaz.

A luz também muda de plano: de dia, junto à água onde ele se contempla, para o tom crepuscular e noturno onde a petrificação se consuma. A beleza refletida dá lugar à beleza real, que brota da terra e da casca rachada.

A Lenda de Narciso

Na Grécia Antiga, nasceu Narciso, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. O adivinho Tirésias predisse que ele teria vida longa se jamais contemplasse a própria face. Narciso cresceu belo, mas indiferente ao amor alheio: desprezou a ninfa Eco e todos que se apaixonaram por ele. Como punição, os deuses o fizeram apaixonar-se pelo próprio reflexo nas águas de uma fonte. Ali ficou, dia e noite, a mirar-se, sem conseguir abraçar nem afastar-se - até consumir-se. No lugar onde morreu, nasceu uma flor: o narciso.

Em outra versão, ele contemplava a imagem para recordar a irmã gêmea morta tragicamente. Em todas, o cerne é o mesmo: amar-se tanto que se perde a vida.

Na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição em que o indivíduo volta todo o amor e atenção para si mesmo, em detrimento do mundo e dos outros. Dalí traduziu essa ideia em imagem: o amor a si mesmo petrifica - mas também, ao se romper, faz brotar algo novo.

Dalí não apenas ilustra a lenda: ele a transforma em metáfora visual. Narciso morre de amor por si mesmo e se petrifica - mas daquela pedra rachada, daquela casca partida, nasce uma flor. A obra diz: amar-se demais endurece e mata; mas quando a vaidade se quebra, é possível que algo verdadeiramente belo finalmente brote.

Salvador Dali foi um artista versátil. Algumas de suas obras mais populares são esculturas e outros objetos, e ele também é conhecido por suas contribuições ao teatro, moda e fotografia, entre outras áreas.As excentricidades e declarações provocadoras fizeram de Salvador Dalí uma das mais polêmicas figuras da arte contemporânea, mas não impediram que sua obra fosse reconhecida como uma das mais audaciosas e apuradas da pintura surrealista



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 Salvador Dalí, em Dawn Ades, Dalí e Surrealismo

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

GUERNICA de Pablo Picasso

UMA OBRA SOBRE A VIOLÊNCIA


Guernica - Pablo Picasso Fonte imagem: google.com


Picasso pinta apenas com preto, branco e tons de cinza, sem nenhuma cor. Essa escolha não é casual: aproxima a imagem da fotografia de jornal que noticiou o bombardeio, confere peso de documento histórico e transforma tudo em luto - a ausência de cor é a própria cor da morte. A luz não é natural: vem de uma lâmpada em forma de olho no alto centro, cuja luz cortante e artificial fere mais do que ilumina  como uma bomba que clareia a noite do ataque.

Composição - Caos com Estrutura


A obra parece desordenada, mas é organizada com rigor: forma um grande triângulo piramidal com vértice na lâmpada e base no chão, estruturado como um tríptico. As figuras são lidas da esquerda para a direita, em ritmo de frieza crescente. As formas são fragmentadas, angulosas, distorcidas - a linguagem cubista usada para dar forma ao estilhaçamento da guerra. Nada está inteiro: rostos, corpos, edifícios - tudo partido, como se a explosão tivesse rasgado a própria realidade.

 Os Símbolos e Figuras

À esquerda: A Mãe e o filho morto
Uma mulher ergue o rosto em grito silencioso, carregando nos braços o corpo inerte da criança. A composição evoca a Pietá, mas sem consolo divino — só dor humana e desamparo. A morte é pessoal, doméstica, irreparável.

O Touro
Fica ao lado, imóvel, de olhar alheio ao sofrimento. Picasso disse representar "brutalidade e escuridão" - mas também permanece ambíguo: pode ser a força que assiste impassível, o poder que não intervém. Não salva, não impede, apenas observa.

No centro: O Cavalo agonizante
Perfurado por uma lança, retorcido em dor, com a língua pontiaguda como um grito. É o povo inocente, a vítima indefesa, o corpo coletivo perfurado pela violência. É o coração da obra — ali concentra-se a agonia.

 O Soldado desmembrado
No chão, entrelaçado à base do triângulo, restos de corpo, mão que ainda segura uma espada - impotente - e uma flor pequena. A guerra desfaz o combatente; o que resta é a flor, frágil símbolo de esperança quase esmagada.

A Pomba
Quase invisível, entre touro e cavalo, tem a asa caída. É a paz ferida, mal distinguível da escuridão — a paz que a guerra tentou apagar.

 À direita: Fogo e Queda
Uma mulher despenca de um edifício em chamas, braços erguidos. Outra se arrasta, ferida, e uma terceira segura uma vela - luz fraca, ainda assim acesa. A destruição avança, mas a chama da vela não se apaga.

 A Linguagem do Grito

Não há sangue, não há fogo pintado com vermelho - e mesmo assim tudo arde. As bocas abertas, línguas pontiagudas como punhais ou lágrimas são o som da dor congelado. Picasso não pinta o momento da explosão, mas o que fica depois: o silêncio ensurdecedor dos que gritam e ninguém ouve.

Guernica não é apenas sobre uma cidade bombardeada. É sobre qualquer guerra, qualquer vítima, qualquer violência. Ao recusar cores e datas específicas, Picasso eleva a cena à tragédia universal: a guerra que destrói inocentes, que rasga corpos, que mata crianças - e que deixa, no fim, apenas a escuridão e a vela acesa.
A obra é um grito sem som - e por isso ecoa para sempre.

Ficha Técnica

Autor: Pablo Picasso (1881–1973)

Ano: 1937 (maio–junho, Paris)

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 349,3 × 776,6 cm

Estilo: Cubismo tardio, com elementos surrealistas e expressionistas

Contexto: Encomendada pela República Espanhola para o Pavilhão da Espanha na Exposição Internacional de Paris; resposta ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação nazista a serviço de Franco

Localização: Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri.




Curiosidade: "Diz - se que na parte central (inferior direito) do quadro, a pelagem do cavalo mutilado é retratada com pequenos traços verticais. Picasso teria começado a fazê-las, mas quem as terminou teria sido sua esposa, pois o artista teria dito que davam muito trabalho."

ANÁLISE SEMÂNTICA POR JULIO PLAZA:                  
(Julio Plaza)

PersonagensAtitudesSentimento
TouroErguida à esquerda para frenteValor, orgulho.
MãeErguida para cimaEstabilidade.
MeninoPara baixo Lamento,súplica.
GuerreiroHorizontal, para o altoMorte.
AvePara cimaDestruição.
CavaloErguida, para a esquerdaLamentação, ascensão.
Portadora de LuzPara a esquerdaAgonia.
FugitivaDiagonal para a esquerda e acimaIngenuidade, busca.
Mulher que caiPara cima e abaixo em diagonalAnsiedade, busca, pânico, súplica.
São estas as nove personagens com suas correspondentes atitudes, sentimentos e qualidades representadas que correspondem ao interpretante imediato que é o produtor de sentido.



ANÁLISE PRAGMÁTICA POR JULIO PLAZA:

(Julio Plaza)

O símbolo em Guernica:
 
Guernica: símbolo do conflito antagônico Vida/Morte caracterizado pelo cromatismo contrastado que estabelece sistemas binários de oposição: branco e preto, vida e morte, bem e mal, deus e demônio, vitória e derrota, racional e irracional e caos e ordem.
Touro: fortaleza, verticalidade, orgulho, símbolo mítico do homem touro= minotauro. Aliás, símbolo do próprio artista. O touro é símbolo totem do telúrio, da península ibérica. Metáfora do instinto animal, da energia e da vida. Em termos junguianos representa o inconsciente, irracional a libido. Diversos autores vêm neste touro uma imagem simbólica e metafórica do povo espanhol. 

AVE: metáfora da paz.
Cavalo: metáfora do instinto animal, do telúrico, da vida, do tempo. Em termos junguianos aparece como um componente animal do homem, o inconsciente, a libido, do fogo/luz. Autores identificam este cavalo como simbolizando as forças nacionalistas fascistas.
Luz 1: Há na pintura dois tipos de luz. Uma lâmpada que parece observar a cena de forma omniscente, como consciência sem consciência que observa a cena. Aparece aqui como símbolo do olho de Deus, como luz irradiante que observa a cena como testemunha muda. Pode-se dizer que simboliza a verdade da história. Metáfora do sol, do divino, da verdade.
Luz 2: Luz do candil que parece simbolizar a "iluminação" enquanto inteligência, vida, liberdade, procura de instauração da ordem no caos, metáfora da energia física e espiritual.
Fogo Luz: par semântico antagônico: iluminação destruição.
Triangulo: serve de base para a composição. Pode ser identificado como símbolo de morte pelo seu caráter estático, acentuado ainda pela estátua destruída do guerreiro.
Guerreiro: roto, fragmentado, metáfora da derrota militar e da história.




Assista o video - Guernica em 3D (se não conseguir ver aqui, veja direto no you tube)