Você já prestou atenção a essa tela? Nada mais é do que a junção do "Abaporu" com "A Negra". Este aparece invertido em relação ao quadro original. Trata-se de uma das telas mais significativas de Tarsila.
Antropofagia — Tarsila do Amaral
- Autora: Tarsila do Amaral (1886–1973)
- Ano: 1929
- Técnica: Óleo sobre tela
- Dimensões: 100 × 110 cm
- Acervo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)
- Fase: Período Antropofágico
Antropofagia reúne, numa só imagem, as duas grandes criações que definem o caminho de Tarsila: a dignidade telúrica de A Negra e a força simbólica de Abaporu. Pintada em 1929, é a síntese perfeita de tudo o que a artista vinha construindo - um olhar que não imita, mas devora e recria, fundindo corpo, terra e cultura numa só linguagem.
A figura sentada ocupa todo o espaço da tela. Corpo amplo, pesado, de linhas arredondadas e contornos firmes - sem rosto, sem detalhes desnecessários, pura presença. Os pés imensos fincam-se no chão, herança direta de Abaporu: são raízes, são vínculo indestrutível com o solo brasileiro. A postura, serena e absoluta, traz a mesma dignidade silenciosa de A Negra - não há submissão, nem fragilidade: há força, quietude e direito de existir.
Ao fundo, a paisagem que se torna parte do corpo: cactos altos e escuros, folha de bananeira em forma de leque, um sol que brilha como fruto maduro. Tudo é estilizado, simplificado, geometrizado - mas sem perder a pulsação da terra. As cores são quentes e diretas: o laranja-dourado da pele, o verde intenso da vegetação, o azul claro do céu. Nada é sombrio, nada é europeu: é a luz do trópico, pintada por quem a conhece de dentro.
A união das duas referências faz a obra ainda mais poderosa: de A Negra, Tarsila toma a dignidade e o protagonismo do povo brasileiro; de Abaporu, toma a metáfora da devoração e da raiz. Juntas, dizem o mesmo: este corpo é brasileiro, esta terra é nossa, e esta arte não pede licença a ninguém. A figura sem rosto é, ao mesmo tempo, um indivíduo e todos nós - o povo que finalmente se vê representado com força, sem máscaras e sem vergonha.
Antropofagia é, assim, a consumação de um caminho: Tarsila olha para a Europa, absorve o que vê, e devolve algo que não se parece com nenhum outro lugar. É a arte brasileira reconhecendo-se, forte e inteira, diante do próprio espelho.
A Negra ergueu a dignidade; Abaporu apontou a raiz. Em Antropofagia, Tarsila junta os dois caminhos: um corpo que é terra, uma arte que é devoração. Não há mais separação - o homem, a terra e a cultura formam um só bloco. É a imagem mais completa do que significa ser brasileiro.
Veja o video:

massa gostei
ResponderExcluirbem estranho este quadro, mas é bem interessante a mistura de cores e tecnicas que vemos aqui .
ExcluirÉ interessante este entrelaçamento de pernas com peito.
ResponderExcluirGenial!
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