sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Solidão - Iberê Camargo


Imagem: google.com

 

Em Solidão, Iberê Camargo transforma o silêncio em matéria pictórica. A obra, marcada por tons densos e gestos vigorosos, é um mergulho na interioridade humana - um espaço onde o isolamento não é ausência, mas presença absoluta. O artista, conhecido por sua pintura existencial e introspectiva, faz da solidão um território de confronto entre o ser e o tempo.

A composição é dominada por uma atmosfera de clausura. As formas, ora humanas, ora abstratas, parecem emergir de um fundo espesso, quase sufocante. O gesto pictórico de Iberê - intenso, nervoso, carregado de tinta - revela uma luta entre o impulso e o controle, entre o desejo de expressão e o peso da contenção. Cada pincelada é uma respiração difícil, um traço que busca romper o silêncio que o envolve.

A paleta de cor, geralmente restrita a tons terrosos, cinzentos e ocres, reforça o caráter emocional da obra. Não há brilho, não há distração: há densidade. A cor se torna corpo, e o corpo se torna espaço. Essa materialidade da pintura é também uma metáfora da existência - pesada, concreta, marcada pela passagem do tempo e pela inevitabilidade da finitude.

Em Solidão, o humano é reduzido à essência. Não há narrativa, não há cenário. Há apenas o sujeito diante de si mesmo, confrontado com o vazio. Iberê não representa a solidão como melancolia romântica, mas como condição ontológica — o estado em que o homem se reconhece como ser isolado, consciente de sua própria fragilidade.

A obra dialoga com toda a trajetória do artista, especialmente com suas séries tardias, nas quais o gesto se torna cada vez mais urgente e o espaço pictórico se converte em campo de tensão. Solidão é, portanto, uma síntese de sua poética: o drama da existência traduzido em matéria, o silêncio transformado em cor, o isolamento elevado à categoria de experiência estética.

Iberê Camargo não pinta o mundo exterior — pinta o que sobra quando o mundo se cala. E nesse silêncio espesso, o espectador encontra não apenas o artista, mas a si mesmo.


CONTEXTO

Solidão foi o último quadro produzido pelo pintor Iberê Camargo. A obra condensa muitas das buscas poéticas e existenciais do artista. Para Maria Coussirat Camargo, sua esposa, a tela personifica a própria desolação humana,pois ele já se encontrava debilitado pela doença descoberta na década de 90 e, muitas vezes teve de ajudá-lo. O azul desmaterializa os corpos em "Solidão", iguala-os ao céu ao ar .A linha do horizonte desaparece não há mais tanta concretude.O fundo invade as figuras .Os corpos se assemelham a passagensde fantasmas .

"Solidão" juntamente com outras obras emblemáticas da trajetória final de Iberê traz uma melancolia marcada pela angústia ,a  tinta é mais diluída e as cores mudam: azul, cinza e violeta, tons mais escuros. As figuras humanas que habitam as telas parecem mais caricaturas. como as séries "Tudo te é fácil e inútil" e as "Idiotas" integram a exposição "Paisagens de Dentro: As Últimas Pinturas de Iberê Camargo" expostas em Porto Alegre.A critica de arte Icleia Cattani diz que "Nas telas de Iberê dos anos 90, as paisagens parecem ser geradas de dentro do próprio pintor, de dentro dos corpos humanos presentes nas telas, como se fossem criadas à sua medida. Essa característica é notável até sua última tela, Solidão", avalia a curadora. Realmente percebe-se na obra de Iberê traços sem definição e difusos no espaço marcados pela melancolia.Um pintor abstrato sem abrir mão da textura e do grafismo e moderno, mas rigoroso como os pintores clássicos.Uma coisa fica clara - a dramatização da experiência.


Jaguari-1941/40 x 30 cm
Óleo sobre tela












Sem título-1941
22 x 17,5 cm



As obras reproduzem algumas das principais características mantidas pelo artista para compor essas "paisagens", como os tons monocromáticos, e as figuras planas e desmaterializadas.

Auto-Retrato - 1984/óleo sobre madeira
 O artista realizou incontáveis auto-retratos(ao lado). Para ele, tratava-se de uma busca de auto-conhecimento e de questionamento interior : "Como modelo me transmuto em forma. Sou, então, pintura. Ao me retratar, gravo minha imagem no vão desejo de permanecer, de fugir ao tempo que apaga os rastros. O auto-retrato é uma introspecção, um olhar sobre si mesmo. É ainda interrogação, cuja resposta é também pergunta. Essa imagem que o pintor colhe na face do espelho, ou na superfície tranqüila da água, - penso no Narciso de Caravaggio – revela como ele se vê e como olha o mundo. (...) Não tenho presente quantos auto-retratos pintei. Se retratar-se revela narcisismo, todos pintores o são. Na sucessão de minha imagem no tempo, ela se deteriora como tudo que é vivo e flui. Muitas vezes, me interroguei diante do espelho. No passar do tempo, nos transformamos em caricaturas." (p.31-32, Lagnado) 



A Idiota - 1991- óelo sobre tela
“As Idiotas” -esperavam a vida passar. Sentados em bancos de praça,com rostos de bobos,irritantes e sem graça;olhares perdidos e feiúra dos corpos.
Em 1991, o artista começa a pintar As Idiotas - seres apáticos, incapazes de reagir à realidade circundante. Esses personagens apresentam-se envoltos na atmosfera ora sombria, ora crepuscular, que mescla o presente e o passado do artista.

A idiota, obra de 1991, é a primeira de uma série de idiotas que reaparecem em obras como As Idiotas, 1991, Crepúsculo da Boca do Monte, de 1991, ou na série Tudo te é Falso e Inútil, de 1992.


Iberê habita o mundo ,oferece à percepção uma função ontológica ,um vínculo singular com a produção e deflagração de sentido .Há um corpo e um tempo próprio do olhar de Iberê que se supera através de entrelaçamento entre visível invisível ,entre o acontecimento da verdade e seus desvelamentos . As coisas transpassam pelo corpo do pintor.É o corpo sensível que sente e se sente que sabe se sentir sentindo. Obra "A Idiota" , óleo s/ tela, 155 X 200 cm, 1991 “ É difícil revelar o significado das coisas. O Homem olha a sua face, interroga-se e não sabe quem é.”

A série  “As Idiotas”, uma das partes mais conhecidas da obra de Iberê, refletem sua visão sobre a natureza humana alienada e a tirania do tempo. “ A situação do homem no mundo foi sua preocupação constante e ficou manifestada por diversas vias nas suas pinturas, gravuras e desenhos”do início da década de 1990,e representam a fase final da obra de Iberê, que morreu de câncer aos 79 anos. “Iberê apresenta obras narrativas que descrevem uma ação ou situação envolvendo figuras tristes, com atitude de solidão e abandono, como se anunciassem o destino humano da morte” O próprio Iberê sintetizou: “O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.”

Click e veja mais obras de Iberê:



Mais informações:
1990 - Fundação Iberê Camargo

5 comentários:

  1. Olá Soniamar, desejo que todo esteja bem contigo!
    Sempre belas e interessantes suas postagens por aqui, obrigado por compartilhar com todos tanto conhecimento, vivendo e aprendendo sempre!
    Um artista notável, que deixou obras de grande beleza e expressão!
    Desejo a você e todos ao redor infinita felicidade, obrigado pelo carinho de suas visitas e comentários, grande abraço e até mais, e parabéns pelo belo espaço e por seu empenho!

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  2. Olá Soniamar, desejo que tudo esteja bem contigo e todos!
    Pois é minha cara, o amor tem destas coisas, mesmo distante, e até mesmo sonhado, pode nos fazer sentir completo!
    Ando meio distante, mas, é por conta dos turnos do trabalho, mas sempre estarei por aqui, neste seu belíssimo espaço de conhecimento!
    Desejo a você e todos ao redor felicidades sempre, deveras alegre me faz tuas visitas e comentários sempre carinhosos e inteligentes! Abraços e até mais!

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  3. FIQUEI IMPRESSIONADA COM A CAPACIDADE DE EXPRESSÃO DE IBERÊ CAMARGO AO PINTAR "A IDIOTA". EMOCIONEI SÓ EM VÊ-LA.ACHO QUE PASSAREI ANOS DA MINHA VIDA DECIFRANDO-A E BUSCANDO ATRAVÉS DESSA IMAGEM COMPREENDER O QUE É O HOMEM, SEU COMPORTAMENTO, SUA CAPACIDADE DE MEMÓRIA E CONSEQUENTEMENTE, ENTENDENDO-ME. PARABÉNS PELA INICIATIVA DE CONSTRUIR UM BLOG COM ESSA QUALIDADE DE INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO.

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