sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

GUERNICA de Pablo Picasso

UMA OBRA SOBRE A VIOLÊNCIA


Guernica - Pablo Picasso Fonte imagem: google.com


Picasso pinta apenas com preto, branco e tons de cinza, sem nenhuma cor. Essa escolha não é casual: aproxima a imagem da fotografia de jornal que noticiou o bombardeio, confere peso de documento histórico e transforma tudo em luto - a ausência de cor é a própria cor da morte. A luz não é natural: vem de uma lâmpada em forma de olho no alto centro, cuja luz cortante e artificial fere mais do que ilumina  como uma bomba que clareia a noite do ataque.

Composição - Caos com Estrutura


A obra parece desordenada, mas é organizada com rigor: forma um grande triângulo piramidal com vértice na lâmpada e base no chão, estruturado como um tríptico. As figuras são lidas da esquerda para a direita, em ritmo de frieza crescente. As formas são fragmentadas, angulosas, distorcidas - a linguagem cubista usada para dar forma ao estilhaçamento da guerra. Nada está inteiro: rostos, corpos, edifícios - tudo partido, como se a explosão tivesse rasgado a própria realidade.

 Os Símbolos e Figuras

À esquerda: A Mãe e o filho morto
Uma mulher ergue o rosto em grito silencioso, carregando nos braços o corpo inerte da criança. A composição evoca a Pietá, mas sem consolo divino — só dor humana e desamparo. A morte é pessoal, doméstica, irreparável.

O Touro
Fica ao lado, imóvel, de olhar alheio ao sofrimento. Picasso disse representar "brutalidade e escuridão" - mas também permanece ambíguo: pode ser a força que assiste impassível, o poder que não intervém. Não salva, não impede, apenas observa.

No centro: O Cavalo agonizante
Perfurado por uma lança, retorcido em dor, com a língua pontiaguda como um grito. É o povo inocente, a vítima indefesa, o corpo coletivo perfurado pela violência. É o coração da obra — ali concentra-se a agonia.

 O Soldado desmembrado
No chão, entrelaçado à base do triângulo, restos de corpo, mão que ainda segura uma espada - impotente - e uma flor pequena. A guerra desfaz o combatente; o que resta é a flor, frágil símbolo de esperança quase esmagada.

A Pomba
Quase invisível, entre touro e cavalo, tem a asa caída. É a paz ferida, mal distinguível da escuridão — a paz que a guerra tentou apagar.

 À direita: Fogo e Queda
Uma mulher despenca de um edifício em chamas, braços erguidos. Outra se arrasta, ferida, e uma terceira segura uma vela - luz fraca, ainda assim acesa. A destruição avança, mas a chama da vela não se apaga.

 A Linguagem do Grito

Não há sangue, não há fogo pintado com vermelho - e mesmo assim tudo arde. As bocas abertas, línguas pontiagudas como punhais ou lágrimas são o som da dor congelado. Picasso não pinta o momento da explosão, mas o que fica depois: o silêncio ensurdecedor dos que gritam e ninguém ouve.

Guernica não é apenas sobre uma cidade bombardeada. É sobre qualquer guerra, qualquer vítima, qualquer violência. Ao recusar cores e datas específicas, Picasso eleva a cena à tragédia universal: a guerra que destrói inocentes, que rasga corpos, que mata crianças - e que deixa, no fim, apenas a escuridão e a vela acesa.
A obra é um grito sem som - e por isso ecoa para sempre.

Ficha Técnica

Autor: Pablo Picasso (1881–1973)

Ano: 1937 (maio–junho, Paris)

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 349,3 × 776,6 cm

Estilo: Cubismo tardio, com elementos surrealistas e expressionistas

Contexto: Encomendada pela República Espanhola para o Pavilhão da Espanha na Exposição Internacional de Paris; resposta ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação nazista a serviço de Franco

Localização: Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri.




Curiosidade: "Diz - se que na parte central (inferior direito) do quadro, a pelagem do cavalo mutilado é retratada com pequenos traços verticais. Picasso teria começado a fazê-las, mas quem as terminou teria sido sua esposa, pois o artista teria dito que davam muito trabalho."

ANÁLISE SEMÂNTICA POR JULIO PLAZA:                  
(Julio Plaza)

PersonagensAtitudesSentimento
TouroErguida à esquerda para frenteValor, orgulho.
MãeErguida para cimaEstabilidade.
MeninoPara baixo Lamento,súplica.
GuerreiroHorizontal, para o altoMorte.
AvePara cimaDestruição.
CavaloErguida, para a esquerdaLamentação, ascensão.
Portadora de LuzPara a esquerdaAgonia.
FugitivaDiagonal para a esquerda e acimaIngenuidade, busca.
Mulher que caiPara cima e abaixo em diagonalAnsiedade, busca, pânico, súplica.
São estas as nove personagens com suas correspondentes atitudes, sentimentos e qualidades representadas que correspondem ao interpretante imediato que é o produtor de sentido.



ANÁLISE PRAGMÁTICA POR JULIO PLAZA:

(Julio Plaza)

O símbolo em Guernica:
 
Guernica: símbolo do conflito antagônico Vida/Morte caracterizado pelo cromatismo contrastado que estabelece sistemas binários de oposição: branco e preto, vida e morte, bem e mal, deus e demônio, vitória e derrota, racional e irracional e caos e ordem.
Touro: fortaleza, verticalidade, orgulho, símbolo mítico do homem touro= minotauro. Aliás, símbolo do próprio artista. O touro é símbolo totem do telúrio, da península ibérica. Metáfora do instinto animal, da energia e da vida. Em termos junguianos representa o inconsciente, irracional a libido. Diversos autores vêm neste touro uma imagem simbólica e metafórica do povo espanhol. 

AVE: metáfora da paz.
Cavalo: metáfora do instinto animal, do telúrico, da vida, do tempo. Em termos junguianos aparece como um componente animal do homem, o inconsciente, a libido, do fogo/luz. Autores identificam este cavalo como simbolizando as forças nacionalistas fascistas.
Luz 1: Há na pintura dois tipos de luz. Uma lâmpada que parece observar a cena de forma omniscente, como consciência sem consciência que observa a cena. Aparece aqui como símbolo do olho de Deus, como luz irradiante que observa a cena como testemunha muda. Pode-se dizer que simboliza a verdade da história. Metáfora do sol, do divino, da verdade.
Luz 2: Luz do candil que parece simbolizar a "iluminação" enquanto inteligência, vida, liberdade, procura de instauração da ordem no caos, metáfora da energia física e espiritual.
Fogo Luz: par semântico antagônico: iluminação destruição.
Triangulo: serve de base para a composição. Pode ser identificado como símbolo de morte pelo seu caráter estático, acentuado ainda pela estátua destruída do guerreiro.
Guerreiro: roto, fragmentado, metáfora da derrota militar e da história.




Assista o video - Guernica em 3D (se não conseguir ver aqui, veja direto no you tube)













sábado, 7 de setembro de 2013

Independência ou Morte - Pedro Américo

O grito do Ipranga - Pedro Américo de Figueiredo e Melo
Você já deve ter visto esse quadro em livros ou até mesmo ao vivo (ele está no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga em São Paulo.
O nome original dessa tela é "Independência ou Morte" mas ficou conhecida como "O Grito do Ipiranga".

A tela mede 7,60 x 4,15 m, tratando-se de uma tela retangular que representa a cena de Dom Pedro I proclamando a independência do Brasil. Na tela também aparecem: 
- à direita e à frente do grupo principal, em semicírculo, estão os cavaleiros da comitiva; à esquerda, e em oposição aos cavaleiros, está um longo carro de boi guiado por um homem do campo que olha a cena curiosamente.
Essa obra foi encomendada pelo governo imperial e pela comissão de construção do monumento do Ipiranga, antes que o Museu do Ipiranga existisse, e foi completado em Florença em 1888.

Na  interpretação oficial, D. Pedro I, rodeado por soldados vestidos em seus uniformes de gala, aparece como o príncipe regente que rompeu com a dominação de Portugal, erguendo sua espada às margens do Rio Ipiranga e decretando a independência do Brasil a partir daquela data (7 de setembro de 1822). Dizemos que esta imagem é a interpretação oficial porque foi construída para ser aceita e difundida como o marco histórico da separação da colônia brasileira em relação à metrópole portuguesa. O primeiro governante a difundir esta imagem acerca da proclamação da independência do Brasil foi D. Pedro II, que governou o Brasil no período de 1840 a 1889. A tela de Pedro Américo foi feita por encomenda do Imperador em parceria com o governo de São Paulo.

 "Pedro Américo recorre à composição elíptica, mais eficaz na construção da idéia de integração de todos os personagens ao grupo principal. A composição de Independência ou Morte é organizada em dois grandes semicírculos: um evolui do centro de tela para a direita, no qual se inscreve o grupo dos soldados, e o outro para a esquerda. As duas figuras que chegam a cavalo, ao final do séqüito de D. Pedro, marcam o início do semicírculo que, em movimento descendente, termina no eixo central que
tange o limite da tela."(OLIVEIRA e MATTOS, op. cit., p.89)

CONTUDO , A  imagem que consagrou o 7 de Setembro é verossímil, mas não relata com exatidão o ocorrido no Dia da Independência. "Foi uma cena produzida pela imaginação do pintor. O próprio Pedro Américo reconheceu que seria impossível fazer uma relação entre a pintura e o episódio. Não apenas porque havia uma grande diferença de tempo [a tela foi pintada em 1888, e a Independência ocorreu em 1822], mas também porque não seria possível reconstituir minuciosamente o acontecido, faltavam relatos", explicou em entrevista ao G1 a historiadora e professora da USP Cecília Helena de Salles, coautora do livro "O Brado do Ipiranga".

"As diferenças são significativas . Primeiro, não era comum usar cavalos, mas sim mulas, para fazer o trajeto da Serra do Mar. Os uniformes também eram galantes demais para o tipo de viagem que D. Pedro I estava fazendo. Sua comitiva também nem era tão numerosa - no máximo levava 14 pessoas. "A pintura histórica retrata o episódio de maneira grandiosa, e Américo criou toda uma situação na tela para ressaltar esse aspecto", diz a professora Cecília. D. Pedro I estava voltando a São Paulo quando recebeu documentos vindos de Portugal e, depois de os ler, declarou o Brasil independente."(http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1294850-16107,00 QUADRO+DO+GRITO+DA+INDEPENDENCIA+E+OBRA+DA+IMAGINACAO+DO+PINTOR.html)


 Beleza ideal
Uma das características gerais da pintura acadêmica é seguir os padrões de beleza da Academia de Belas Artes, ou seja, o artista não deve imitar a realidade, mas tentar recriar a beleza ideal em suas obras. Sim, a idéia foi retratar o fato como grandioso, com o intuito de enaltecer o Império e o nacionalismo - o Brasil havia proclamado sua independência havia pouco tempo.

O academismo, importado da Europa, dominou as artes plásticas no Brasil até o início do século 20. Por isso, prevaleciam temas históricos e mitológicos nas pinturas daquele período, temas típicos do neoclassicismo.

Pedro Américo


(Pedro Américo de Figueiredo e Melo), pintor brasileiro (Areia, PB, 1843 - Florença, 1905). Doutor em ciências físicas pela Universidade de Bruxelas, na Bélgica, freqüentou ainda cursos de filosofia e literatura em Paris, onde se aperfeiçoou em pintura. De retorno ao Brasil, conquistou a cátedra de desenho da Academia Imperial das Belas-Artes, transferindo-se mais tarde para a de história das artes, estética e arqueologia. Consagrado com a colocação de seu retrato na sala de pintores célebres da Galeria degli Uffizzi (Florença). Principais quadros: Batalha do Avaí, Grito do Ipiranga, Judith e Holofernes, Rabequista Árabe. 



A Batalha do Avaí - Pedro Américo













O artista se preocupava em estudar todos os detalhes de seus quadros, como roupas, armas e os tipos físicos das pessoas.

Rabequista Árabe - Pedro Américo





Judith e Holofernes - Pedro Américo
Judith rende graças a Jeová por ter conseguido livrar sua pátria dos horrores de Holofernes, 1880, Museu Nacional de Belas Artes



Fonte: Imagens do  [[Ficheiro:Pedro Américo]]  e uol.com 


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Série: A Anunciação - Leonardo Da Vinci - 1472-1475




A Anunciação - Leonardo Da Vinci -  1472-1475


 "A Anunciação, ou L’annunciazione, em italiano, é um óleo sobre painel de Leonardo da Vinci, pintado entre 1472 e 1475, com 98.4 × 217 cm de dimensão.

Representando o anjo Gabriel no momento que anunciava a Maria que fora escolhida pelo Senhor para ser a mãe de Jesus, seu filho, de acordo com o evangelho de Lucas 1:26.

O trabalho ficou oculto até 1867 quando foi transferido de um convento próximo a Florença para a Galeria degli Uffizi, também em Florença.Desde então, alguns investigadores mostraram a pintura como o primeiro trabalho deLeonardo da Vinci, embora outros estejam a favor de atribuir a pintura a outros pintores como: Ghirlandaio ou Verrocchio.Historiadores da arte Chegaram a atribuir A Anunciação a Verrocchio,mas em análises minuciosas,descobriram que o Batismo de Cristo de Leonardo Da Vinci encontrava-se a paisagem parecida de cipreste e teixos.Além disso,os anjos que aparecem nas duas obras são muito semelhantes.Ainda há quem afirme que Leonardo pintou o anjo e Verrocchio a Maria.Se for mesmo assim,uma obra pintada a quatro mãos geniais teria ainda mais valor.

As asas do anjo foram pintadas com precisão naturalista, um exemplo da curiosidade científica típica da carreira de Leonardo. Usou o seu conhecimento sobre as asas de pássaros para fazer as asas do anjo.

No primeiro plano, o pintor representa um tipo de tapete em flor no qual todas as flores foram pintadas com precisão.

Mais adiante, o mar e as montanhas, emergindo da névoa azul clara que reflete com cuidado o modo de acordo com o qual as cores mudam com a variação da luz: o chiaroscuro e o sfumatto." (Fonte:Wikipedia)

                                                   Segunda versão - A Anunciação - 1478

 "Em 1478, Leonardo da Vinci com a ajuda do seu colega Lorenzo di Credi, pintou pela segunda vez a A Anunciação, mas desta vez, em um painel pequeno e com medidas muito desproporcionais, o que causou a dificuldade em pintar detalhes, ao contrário, a primeira anunciação, fora pintada em um painel de medidas colossais, e muito bem distribuídas (98 x 217 cm), o que, facilitou na colocação de pequenos detalhes. Muitos dos elementos utilizados por Leonardo são repetidos e alterados; ao contrário da Maria da primeira pintura, elegante e que parece possuir autoridade sobre o anjo, na segunda parece surgir subserviente a este (como se ele tivesse autoridade sobre Ela), tal como na obra-prima de Fra Angelico(abaixo). A sua postura de mulher provocadoramente culta e literata, que encontramos na primeira A Anunciação de Leonardo, desaparece na obra pintada com Lorenzo."(Fonte: Wikipédia e Obras Imortais)

 Há outras versões da obra em tela com os autores Fra Angelico,El Greco, Wyden que serão postos nesta série a seguir.
ANUNCIAÇÃO - FRA ANGÉLICO
A Anunciação - Fra Angelico

Giovanni da Fiesole, nascido Guido di Pietro Trosini, mais conhecido como Fra Angelico, (Vicchio di Mugello, 1387 — Roma, 18 de Fevereiro de 1455) foi um pintor italiano, considerado o artista mais importante da península na época do Gótico Tardio ao início do Renascimento.

"Em  ANUNCIAÇÃO as duas figuras apresentadas assumem uma atitude similar, de graciosa humildade, enquanto inclinam a cabeça uma para a outra e cruzam as mãos. A imagem representa um dos momentos decisivos da tradição cristã, quando o arcanjo Gabriel anuncia à Virgem Maria que Deus a escolheu como mãe de Cristo.
  A Anunciação foi criada por Fra Angelico como um painel devocional para o altar de São Domingos em Fiesole, perto de Florença. O raio diagonal de luz divina incide sobre Maria, iluminando o ultramarino de seu manto e os tons de pêssego do vestido. Do outro lado da coluna central, as vezes brilhantes de Gabriel também complementam o azul intenso.
  As asas do arcanjo ultrapassam o pórtico, parando na primeira parte da pintura, que mostra uma cena do Gênesis: a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. O episódio dá dramaticidade ao conjunto da pintura e contextualiza a Anunciação. Ou seja, Cristo nascerá para salvar a humanidade do pecado original.

Detalhes de A Anunciação se destacam:
1. Virgem Maria:
O rosto de Maria deixa evidente a perícia do artista nos detalhes. A pose de Maria, de mãos entrecruzadas, simboliza a submissão à vontade de Deus.
2. Arcanjo Gabriel:
O halo brilhante ao redor da cabeça de Gabriel reforça a divindade do principal mensageiro de Deus. A pose respeitosa do Arcanjo é tão graciosa quanto o gesto submisso de Maria e as duas figuras, cada uma emoldurada por um arco, se complementam.
3. Deus Pai:
Acima da coluna central do pórtico encontra-se a cabeça esculpida de um homem de barba. A imagem faz referência a Deus, onipotente, onipresente e onisciente.  
4. Adão e Eva:
Fora dos limites do pórtico são retratadas as figuras abatidas de Adão e Eva, que perderam a graça de Deus e estão sendo expulsos do Jardim do Éden, caminhando para fora da pintura. A intenção do artista foi contrastar o pecado com o estado imaculado de Maria, lembrando aos observadores de que Cristo nasceu para redimir os pecados da humanidade".(Fonte:Da  Universia)


ANUNCIAÇÃO - EL GRECO - 1600

Anunciação - El Greco


"Anunciação é uma pintura a óleo sobre tela tradicionalmente atribuída a El Greco e usualmente datada por volta de 1600. A obra integra um conjunto composto por ao menos sete versões quase idênticas, de graus variados de qualidade, todas tradicionalmente creditadas a El Greco e datadas entre 1595 e 1605. O tema da anunciação do anjo à Virgem Maria foi frequentemente tratado por El Greco e o conjunto de versões a qual pertence a obra em pauta parece derivar da composição homônima elaborada pelo artista para o tríptico de Módena, obra de juventude executada entre o fim do período cretense e o início do período veneziano.

A Anunciação é uma obra emblemática do caráter "expressionista" da arte de El Greco, fulgurante de luzes, cores e acordes cromáticos, em que a cenografia é composta por zonas plasticamente distintas, mas interligadas por movimentos ascensoriais e entrecortadas pela presença de luzes místicas e lampejos flamejantes. A pintura está relacionada ao período final da vida do artista em Toledo, em que sua produção assume uma postura mais religiosa, em comparação àquela de seu período italiano, alienando-se dos recursos tradicionais da estética renascentista - talvez por influência das novas doutrinas elaboradas pela Contra-Reforma. A obra em pauta é conservada no Museu de Arte de São Paulo (MASP) desde 1952.

Estão representados na obra a Virgem Maria, o arcanjo Gabriel, portador da revelação divina, e a pomba branca, símbolo do Espírito Santo. A composição é relativamente inusual na tradição iconográfica da Anunciação, com o anjo posicionado à direita da Virgem. Maria se ajoelha em um altar, caracterizando a ocorrência do episódio em um local sagrado, segurando a Bíblia, aberta, com sua mão esquerda. A mão direita encontra-se erguida, à altura do ombro. Traja um vestido de cor vermelha, em alusão à paixão de Cristo, com um manto azul por cima, simbolizando ao mesmo tempo proteção e fidelidade. Um véu branco, símbolo de modéstia e virtuosidade, cobre-lhe a cabeça, deixando a face à mostra, com uma das orelhas descobertas, talvez uma referência ao escutar da mensagem divina. Maria se esquece por um instante do livro sagrado, voltando a cabeça para o lado esquerdo, em direção a Gabriel. Seu semblante é calmo, angelical.

O anjo flutua sobre uma nuvem, aparentemente carregada de chuva, com o corpo ligeiramente inclinado em direção a Maria. Seu traje é amarelo, cor da eternidade, com as mangas brancas. A mão direita se levanta para saudar a Virgem. A mão esquerda porta um ramo de lírios, simbolizando pureza, inocência e virgindade. Seu semblante também é calmo e sua fisionomia algo andrógena ou infantil. Gabriel fita a Virgem com os olhos semi-cerrados. Sua cabeça é coroada por uma auréola luminosa. Um lampejo ocupa toda a parte central da pintura, estendendo-se quase até o chão. De seu centro, surge a pomba branca, que voa em direção a Maria. A luz também incide sobre a Virgem, iluminando suas roupas e parte de seu rosto.


Perto da Virgem, na parte inferior do quadro, um cesto de costura contém um pano branco e uma tesoura. É uma referência ao "tecer do véu do Templo", mencionado pelo Evangelho de João. Ao seu lado, um vaso com um ramo dentro, ardendo em chamas que não o consomem, tal qual a sarça ardente de Moisés, um elemento raro em representações da anunciação. O segundo plano da composição, indefinido, sugere a forma de nuvens entrecortadas por luzes místicas. É bastante escuro, o que confere mais destaque (e dramaticidade) ao lampejo divino e à iluminação que dele se origina.

Como em diversas outras composições de El Greco, a cenografia desta Anunciação é concebida por meio de zonas plasticamente distintas, mas que se interligam por meio de acordes rítmicos mutuamente correspondentes. É possível traçar uma diagonal, prolongando-se do vértice superior esquerdo ao vértice inferior direito, separando as figuras da Virgem e do anjo em dois triângulos distintos. O anjo e a nuvem que o sustenta ocupam o triângulo superior, a Virgem e o cesto de roupas ao seu lado se conformam no triângulo inferior. O equilíbrio da obra é assimétrico, conseguido por meio da tensão estrutural dessas áreas distintas. Os contornos das extremidades das figuras da Virgem e do anjo sugerem um movimento circular ou ovóide, entrecortado pelas curvas paralelas da asa direita do anjo e das asas da pomba. Essa disposição auxilia no equilíbrio da composição, ao mesmo tempo em que lhe confere a sensação de movimento.


Os corpos alongados e retorcidos das personagens, que parecem libertas da gravidade, auxiliam não apenas no equilíbrio, mas, sobretudo, para enfatizar o misticismo do acontecimento. A figura ascensorial do anjo encontra eco na figura igualmente ascensorial de Maria. Isoladamente, as duas figuras sugerem a forma e o movimento de uma chama, como recomendava, já em 1584, Gian Paolo Lomazzo, em seu Trattato dell'arte della pittura. Interligadas pelo lampejo místico ao centro da composição, elas se unem em um contorno harmonioso de ritmo ascendente. O ponto de vista, radial, origina-se na cesta, fornecendo as coordenadas para a contemplação da obra, de baixo para cima, enfatizando a ascensão. O cromatismo complexo da obra e o fundo indefinido removem os objetos da cena do mundo natural, inserindo-os em uma atmosfera saturada de significados místicos, tornando indistintas as dimensões do real e do imaginário. Por fim, chama a atenção a proeminência conferida à figura do Espírito Santo como agente da encarnação, provavelmente fruto das doutrinas contra-reformistas sobre a atitude religiosa do pintor." (Fonte: Da Wikipédia)