terça-feira, 24 de maio de 2011

Mulheres,Flores e Araras - Di Cavalcanti

Mulheres,Flores e Araras - Di Cavalcanti

A tela organiza-se em planos claros e definidos, como se fossem janelas ou espaços distintos que se encontram. No centro, uma mulher de pele morena, olhar sereno e firme, segura com carinho uma arara verde e amarela contra o peito. À sua esquerda, outra mulher, de perfil, veste um vestido verde-escuro e mantem postura calma e recolhida. À direita, em plano mais distante, uma terceira figura observa de pé, sob um guarda-sol rosa, vestida com listras azuis e brancas.

Entre as figuras, em primeiro plano, um cesto transbordante de flores: margaridas brancas, rosas vermelhas e amarelas, hastes verdes - um explosão de cor que cresce exuberante, como se brotasse da própria cena. A arara, as flores e as mulheres formam um triângulo visual: a vida brasileira em seus três elementos mais vibrantes - a gente, a terra e a natureza.

 

Di Cavalcanti rejeita a perspectiva tradicional e o detalhamento realista. As formas são simplificadas, contornadas com firmeza, corpos volumosos e elegantes, sem sombras exageradas. As cores são intensas e diretas: vermelho, rosa, verde, azul, branco - puras, sem misturas suaves. É a linguagem do Modernismo brasileiro: não copia a natureza, reconstrói-a com traço próprio e identidade.

 

Os rostos têm traços marcantes: olhos amendoados, narizes largos, cabelos negros e volumosos. Di Cavalcanti não idealiza - retrata a mulher brasileira com toda a sua beleza genuína, mestiça e forte. Não há fragilidade: há presença, dignidade, quietude.

 

Ao fundo, através de janelas em arco, avista-se uma paisagem urbana com edifícios de estilo colonial, torres e cúpulas sob um céu azul sereno. O espaço interno é quente, íntimo, cheio de vida; o exterior é ordenado, luminoso, calmo. A cidade não invade - emoldura. As mulheres não estão perdidas no espaço urbano: estão nele, mas acima dele, em seu próprio mundo de beleza e serenidade.

 

Símbolos e Sentido

As araras: não são apenas aves - são a fauna brasileira, livre, de cores vibrantes, que a mulher acolhe com ternura. É a relação de afeto entre o povo e a terra.

As flores: abundantes, perfumadas, variadas - representam a fertilidade, a riqueza e a generosidade do solo brasileiro.

As mulheres: três, distintas e unidas - a diversidade e a força feminina, que é centro, raiz e continuidade.

Juntas, mulheres, flores e aves formam uma só imagem: o Brasil que Di Cavalcanti amava pintar — quente, mestiço, belo e inteiro, sem precisar pedir aprovação a nenhum outro padrão.

 

Di Cavalcanti pinta o que é nosso com olhar de quem conhece e ama. As mulheres são a alma; as flores, a terra; as araras, a liberdade. E ao fundo, a cidade - calma, serena, à espera. Não há drama, não há luta: há beleza, simples e verdadeira, brotando sempre, como as flores que nunca faltam neste chão.


Como disse RENATO ROSA "Falar da pintura de Di Cavalcanti é falar da cara e do povo brasileiro, da exuberância tropical do pais, de sua sensualidade sem folclore."

Pode-se observar no quadro acima as mulheres,as flores e a arara numa abordagem sensual  e tropical.
Di cavalcanti soube retratar a cultura do País como ninguém, destacando as festas populares como o carnaval, a paisagem e, principalmente, a figura da mulata .Seus temas favoritos foram os temas nacionais e populares, como favelas, operários, soldados, marinheiros, figuras de belas negras e festas populares. Sua arte, de forma geral,  traz essa abordagem sensual e tropical presente em várias de suas  telas.



Mulata de vestido verde
Di Cavalcanti foi, obviamente, foi um obcecado pelo corpo feminino. As cenas descritas são sempre alegres, caracterizando-se  por uma paleta de cores brilhantes e as representações da vida quotidiana de uma forma não-romantizada. .

A sua ousadia estética e perícia técnica, marcada pela definição dos volumes, pela riqueza das cores, pela luminosidade, vem somar-se a exploração de temas ligados ao seu cotidiano, que ele percebia com vitalidade e entusiasmo. A profunda inclinação aos prazeres da carne e a vida notívaga influenciaram sobremaneira sua obra: o Brasil das telas de Di Cavalcanti é carregado de lirismo, revelando símbolos de uma brasilidade personificada em mulatas que observam a vida passar, moças sensuais, foliões e pescadores. A sensualidade é imanente à obra do pintor e os prostíbulos são uma de suas marcas temáticas, assim como o carnaval e a festa, como se o cotidiano fosse um permanente deleitar-se. A originalidade de uma cultura constituída por um caldo de referências indígenas, européias e africanas, de forma contraditória e única, transparece em suas telas através de uma luminosidade ímpar.  





Baile Popular

Estilo artístico e temática

- Seu estilo artístico é marcado pela influência do expressionismo, cubismo e dos muralistas mexicanos (Diego Rivera, por exemplo).
- Abordou temas tipicamente brasileiros como, por exemplo, o samba. O cenário geográfico brasileiro também foi muitoi retratado em suas obras como, por exmeplo, as praias.
- Em suas obras são comuns os temas sociais do Brasil (festas populares, operários, as favelas, protestos sociais, etc).
- Estética que abordava a sensualidade tropical do Brasil, enfatizando os diversos tipos femininos.
- Usou as cores do Brasil em suas obras, em conjunto com toques de sentimentos e expressões marcantes dos personagens retratados.



Carnaval
Emiliano Di Cavalcanti, o pintor das mulatas, nasceu em 1897, no Rio de Janeiro. Quando seu pai morreu em 1914, Di obrigou-se a trabalhar e fez ilustrações para a Revista Fon-Fon. Em 1917, transferindo-se para São Paulo, seguiu fazendo ilustrações e começou a pintar. Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922 idealizou e organizou a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Fez sua primeira viagem à Europa em 1923, permanecendo em Paris até 1925




FONTE: Texto apresentado a turma após pesquisa de alunos 1º ano em sala no JBC




 Saiba mais: http://www.pitoresco.com.br/brasil/cavalcanti/cavalcanti.htm

domingo, 8 de maio de 2011

Maurits Cornelis Escher - Artista gráfico holandês

Do blog Lavra a palavra,ave palavra 
e do blog de richardja kubaszko


"Escher é conhecido como um especialista em Optical Art, Master of  Symmetry, gravador holandês, artista gráfico holandês, Ilustrator e matemático holandês. Todos estes títulos são válidos para a diversidade de estilo desse homem. Suas paixões, vícios como ele tantas vezes chamou-os, tem  foco em mosaico (trabalho ligando inter figurativa) e divisão no  plano regular.

Maurits C. Escher (1898-1972) era um artista de enigmas. Arquitetura, repetição de padrões, jogos espelhados, simetrias, metamorfoses, combinações de formas côncavas e convexas, situações impossíveis, perspectivas infinitas e gravidade são algumas das ideias que compõem o repertório do artista.Escher ficou mundialmente famoso por representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e as metamorfoses – padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Sua capacidade de gerar imagens com impressionantes efeitos de ilusões de óptica, com notável qualidade técnica e estética, respeitando as regras geométricas do desenho e da perspectiva, é uma de suas principais contribuições para as artes.



 Escher desestrutura as leis da perspectiva em vários de seus quadros. As escadas que descem e sobem ao mesmo tempo,  “soldadinhos” que sobem para descer e descem para subire  até uma tentativa matemática de explicar a razão de uma rainha estar olhando para o mesmo local para o qual um rei está olhando quando cada um está em uma janela diferente e oposta, quedas d’água na verdade estão caindo para cima.




Seu talento matemático e artístico baseado em seus estudos gestálticos fenomenais trouxeram a investigação quase evolucionista por assim dizer do mundo... E por que não social, com seus homens e mulheres quando não com o olhar distante dentro de castelos, em outros momentos em movimento numa linha de produção? Com seus pássaros que viram peixes e vice-versa, seus cubos que viram pássaros no seu método de ladrilhamento e ilusão de ótica. O que é realidade? O que não é? O que é impossível ou não?



Metamorfoses enigmáticas delirantes... Na exposição de sua obra, sete  são destrinchadas em um filme em 3D de poucos minutos, mas que deixam o público tonto de tanta engenhoca e inteligência articulada, metódica mas ao mesmo tempo artística, livre e experimental. Uma mistura, como era mesmo o holandês Escher!! 

 


Ladrilhamentos são outra paixão que este mestre do desenho faz como ninguém. Seu traço, inconfundível, como uma assinatura de seus trabalhos, pode ser reconhecido/identificado por seus admiradores.



Fascinado por matemática e intrigado com as limitações do olho humano, ele passou a vida a investigar como transpor para as duas dimensões da folha de papel as perspectivas imperceptíveis à visão humana. A escada que sobe e desce ao mesmo tempo, a água que cai para cima ou a sala na qual o chão parece teto são imagens bastante conhecidas do artista holandês nascido no final do século 19. 

<- O quadro "Queda D'água" ao lado consiste em traves retangulares que se sobrepõem perpendicularmente. Se seguirmos com os olhos todas as partes desta construção, não se pode descobrir um único erro. No entanto, é um todo impossível porque de repente surgem mudanças na interpretação da distância entre os nossos olhos e o objeto. No desenho aplicou-se três vezes este triângulo impossível. A água duma cascata põe em movimento a roda de um moinho e corre depois para baixo, numa calha inclinada entre duas torres, devagar, em ziguezague, até ao ponto em que a queda d'água de novo começa. O moleiro tem, de vez em quando, de deitar um balde de água para compensar a perda por evaporação. Ambas as torres são da mesma altura, mas a da direita está, contudo, um andar mais baixo do que a da esquerda.



Escher se considerava um artista gráfico. Chegou a fazer algumas esculturas e aquarelas, mas nunca pintou uma tela. A obra é marcada por um repertório de enigmas recorrentes, como as escadas, as perspectivas infinitas, os espelhamentos, a brincadeira com a gravidade e as distorções. “O que ele faz é uma tentativa de nos confundir, na posição de questionar o que vemos. Ele usa o espelhamento para mostrar o que nosso olho não consegue ver”, avisa Tjabbes (curador holandês).



Click e veja as obras de Escher em 3D:

Leia mais sobre Escher:
 

domingo, 24 de abril de 2011

As Meninas - Nina Pandolfo


Os Grafites de Nina Pandolfo são hiper coloridos, femininos e lúdicos. Alguns temas recorrentes na atmosfera sonhadora do trabalho da artista são a natureza e a infância, que Nina retrata, através de suas meninas ora crianças, ora adultas, depende da interpretação do observador. A artista começou pintando telas e aos poucos migrou para as ruas onde desde 1992 trabalha com pinturas em murais além das telas, utilizando os mais diversos materiais, como látex, resina plástica e tecido também em esculturas.

Nina Pandolfo nascida em 1977  é uma ilustradora e artista  plástica,  que gosta de trabalhar livre, leve e solta, utilizando telas, metais, madeira e quaisquer outros objetos, transformando-os em verdadeiras obras de arte.  Nina percorre   as ruas com pincéis e latas de tinta, criando os mais diversos tipos de trabalhos, sejam eles sobre temas críticos, feministas, sarcásticos, intelectuais ou sociais. Já fez diversos trabalhos internacionais. Suas meninas de olhos imensos e expressivos é  uma referência direta ao mangá e ainda podem ser vistas em vários pontos da cidade de S.;P. , inclusive no bairro do Cambuci, onde mora. Segundo a artista, as meninas de grandes olhos “pretendem exprimir os sentimentos secretos espelhados pela alma”. São expressões que traduzem a inocência do olhar infantil e, ao mesmo tempo, trazem uma faísca de provocação do olhar adulto. Brincando com o fato de que as imagens podem ter diversos significados, seu objetivo é mostrar que podemos levar a vida de maneira mais simples, com mais amor e sinceridade.


 Nina é uma das pioneiras no Brasil em levar a street art para as galerias, Nina já participou de projetos de intervenção urbana em várias cidade do Brasil e ao redor do mundo como: Alemanha, Espanha, Cuba, Suécia, Inglaterra e EUA, em projetos importantes como o “The Graffiti Project” na Escócia, ao lado dos também brasileiros Nunca e Os Gêmeos.


 







As meninas de Nina ainda estão espalhadas pela cidade de S.P . Se você estiver em São Paulo, dê uma olhada para fora. Você pode se deparar com uma delas, de sorriso inocente e olhar maroto.

Grafite é a expressão que consiste em utilizar diversas cores de modo a modificar a visão monótona das cidades grandes.

Click e :



Saiba um pouco mais sobre Nina Pandolfo

Fonte: Google.com

domingo, 27 de março de 2011

O Massacre dos Inocentes - Paul Peter Rubens




Le Massacre des Innocents, em português O Massacre dos Inocentes ou ainda O Massacre dos Santos Inocentes, é um célebre e importante óleo sobre madeira do artista barroco Peter Paul Rubens, datado de 1636-1638.

A tela em questão retrata o masacre de recém nascidos promovido por Herodes, na tentativa de eliminar o menino nascido em Belém, que diziam ser o Messias.

O terrível massacre relatado por São Mateus é uma das mais tardias obras-primas de Rubens. A ação desenrola-se entre três distintos grupos e uma mística figura central, sem grupo definido. Soldados possuídos pela fúria e pela implacável impiedade tomam um templo, cujos crentes lutam pela vida, plenos de terror e desespero. No alto personagens celestes assistem, tristes, a toda a batalha.

Merecem também destaque  a brilhante voluptuosidade da composição e virtuosismo técnico na plasticidade dos trajes das personagens, que mais volume exigem. Além de cores vibrantes, Rubens se notabilizou por criar cenas que sugerem, a partir das linhas contorcidas dos corpos e das pregas das roupas, um intenso movimento. Em seus quadros, é geralmente, no vestuário que se localizam as cores quentes - o vermelho, o verde e o amarelo - que contrabalançam a luminosidade da pele clara das figuras humanas.

Esta obra está entre as dez (10) mais caras do mundo - última avaliação: US$ 76.700.000,ºº.

Leia mais:

Biografia de Peter Paul Rubens

Peter Paul Rubens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Solidão - Iberê Camargo


Imagem: google.com

 

Em Solidão, Iberê Camargo transforma o silêncio em matéria pictórica. A obra, marcada por tons densos e gestos vigorosos, é um mergulho na interioridade humana - um espaço onde o isolamento não é ausência, mas presença absoluta. O artista, conhecido por sua pintura existencial e introspectiva, faz da solidão um território de confronto entre o ser e o tempo.

A composição é dominada por uma atmosfera de clausura. As formas, ora humanas, ora abstratas, parecem emergir de um fundo espesso, quase sufocante. O gesto pictórico de Iberê - intenso, nervoso, carregado de tinta - revela uma luta entre o impulso e o controle, entre o desejo de expressão e o peso da contenção. Cada pincelada é uma respiração difícil, um traço que busca romper o silêncio que o envolve.

A paleta de cor, geralmente restrita a tons terrosos, cinzentos e ocres, reforça o caráter emocional da obra. Não há brilho, não há distração: há densidade. A cor se torna corpo, e o corpo se torna espaço. Essa materialidade da pintura é também uma metáfora da existência - pesada, concreta, marcada pela passagem do tempo e pela inevitabilidade da finitude.

Em Solidão, o humano é reduzido à essência. Não há narrativa, não há cenário. Há apenas o sujeito diante de si mesmo, confrontado com o vazio. Iberê não representa a solidão como melancolia romântica, mas como condição ontológica — o estado em que o homem se reconhece como ser isolado, consciente de sua própria fragilidade.

A obra dialoga com toda a trajetória do artista, especialmente com suas séries tardias, nas quais o gesto se torna cada vez mais urgente e o espaço pictórico se converte em campo de tensão. Solidão é, portanto, uma síntese de sua poética: o drama da existência traduzido em matéria, o silêncio transformado em cor, o isolamento elevado à categoria de experiência estética.

Iberê Camargo não pinta o mundo exterior — pinta o que sobra quando o mundo se cala. E nesse silêncio espesso, o espectador encontra não apenas o artista, mas a si mesmo.


CONTEXTO

Solidão foi o último quadro produzido pelo pintor Iberê Camargo. A obra condensa muitas das buscas poéticas e existenciais do artista. Para Maria Coussirat Camargo, sua esposa, a tela personifica a própria desolação humana,pois ele já se encontrava debilitado pela doença descoberta na década de 90 e, muitas vezes teve de ajudá-lo. O azul desmaterializa os corpos em "Solidão", iguala-os ao céu ao ar .A linha do horizonte desaparece não há mais tanta concretude.O fundo invade as figuras .Os corpos se assemelham a passagensde fantasmas .

"Solidão" juntamente com outras obras emblemáticas da trajetória final de Iberê traz uma melancolia marcada pela angústia ,a  tinta é mais diluída e as cores mudam: azul, cinza e violeta, tons mais escuros. As figuras humanas que habitam as telas parecem mais caricaturas. como as séries "Tudo te é fácil e inútil" e as "Idiotas" integram a exposição "Paisagens de Dentro: As Últimas Pinturas de Iberê Camargo" expostas em Porto Alegre.A critica de arte Icleia Cattani diz que "Nas telas de Iberê dos anos 90, as paisagens parecem ser geradas de dentro do próprio pintor, de dentro dos corpos humanos presentes nas telas, como se fossem criadas à sua medida. Essa característica é notável até sua última tela, Solidão", avalia a curadora. Realmente percebe-se na obra de Iberê traços sem definição e difusos no espaço marcados pela melancolia.Um pintor abstrato sem abrir mão da textura e do grafismo e moderno, mas rigoroso como os pintores clássicos.Uma coisa fica clara - a dramatização da experiência.


Jaguari-1941/40 x 30 cm
Óleo sobre tela












Sem título-1941
22 x 17,5 cm



As obras reproduzem algumas das principais características mantidas pelo artista para compor essas "paisagens", como os tons monocromáticos, e as figuras planas e desmaterializadas.

Auto-Retrato - 1984/óleo sobre madeira
 O artista realizou incontáveis auto-retratos(ao lado). Para ele, tratava-se de uma busca de auto-conhecimento e de questionamento interior : "Como modelo me transmuto em forma. Sou, então, pintura. Ao me retratar, gravo minha imagem no vão desejo de permanecer, de fugir ao tempo que apaga os rastros. O auto-retrato é uma introspecção, um olhar sobre si mesmo. É ainda interrogação, cuja resposta é também pergunta. Essa imagem que o pintor colhe na face do espelho, ou na superfície tranqüila da água, - penso no Narciso de Caravaggio – revela como ele se vê e como olha o mundo. (...) Não tenho presente quantos auto-retratos pintei. Se retratar-se revela narcisismo, todos pintores o são. Na sucessão de minha imagem no tempo, ela se deteriora como tudo que é vivo e flui. Muitas vezes, me interroguei diante do espelho. No passar do tempo, nos transformamos em caricaturas." (p.31-32, Lagnado) 



A Idiota - 1991- óelo sobre tela
“As Idiotas” -esperavam a vida passar. Sentados em bancos de praça,com rostos de bobos,irritantes e sem graça;olhares perdidos e feiúra dos corpos.
Em 1991, o artista começa a pintar As Idiotas - seres apáticos, incapazes de reagir à realidade circundante. Esses personagens apresentam-se envoltos na atmosfera ora sombria, ora crepuscular, que mescla o presente e o passado do artista.

A idiota, obra de 1991, é a primeira de uma série de idiotas que reaparecem em obras como As Idiotas, 1991, Crepúsculo da Boca do Monte, de 1991, ou na série Tudo te é Falso e Inútil, de 1992.


Iberê habita o mundo ,oferece à percepção uma função ontológica ,um vínculo singular com a produção e deflagração de sentido .Há um corpo e um tempo próprio do olhar de Iberê que se supera através de entrelaçamento entre visível invisível ,entre o acontecimento da verdade e seus desvelamentos . As coisas transpassam pelo corpo do pintor.É o corpo sensível que sente e se sente que sabe se sentir sentindo. Obra "A Idiota" , óleo s/ tela, 155 X 200 cm, 1991 “ É difícil revelar o significado das coisas. O Homem olha a sua face, interroga-se e não sabe quem é.”

A série  “As Idiotas”, uma das partes mais conhecidas da obra de Iberê, refletem sua visão sobre a natureza humana alienada e a tirania do tempo. “ A situação do homem no mundo foi sua preocupação constante e ficou manifestada por diversas vias nas suas pinturas, gravuras e desenhos”do início da década de 1990,e representam a fase final da obra de Iberê, que morreu de câncer aos 79 anos. “Iberê apresenta obras narrativas que descrevem uma ação ou situação envolvendo figuras tristes, com atitude de solidão e abandono, como se anunciassem o destino humano da morte” O próprio Iberê sintetizou: “O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.”

Click e veja mais obras de Iberê:



Mais informações:
1990 - Fundação Iberê Camargo

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O PORTO - Tarsila do Amaral


O Porto - Tarsila do Amaral
Ficha técnica:

Autora: Tarsila do Amaral (1886–1973)

Título: O Porto

Período: Década de 1920 — fase consolidação da linguagem pessoal

Técnica: Óleo sobre tela

Estilo: Modernismo Brasileiro — síntese de Cubismo, Fauvismo e Pintura Naïve

Tema: Paisagem portuária, provavelmente inspirada no Rio de Janeiro ou em portos vistos em viagens


A tela apresenta um porto visto de leve altura, organizado em planos claros e definidos. Em primeiro plano, barcos de vela e embarcações menores, com casas de cores puras e mastros retos. Ao centro, edifícios empilhados em blocos geométricos: torres, janelas circulares, formas retangulares que sugerem armazéns, farol e construções portuárias. Mais ao fundo, morros arredondados em tons suaves, montanhas azuis recortadas contra o céu, e palmeiras que se erguem com elegância entre os prédios. Tudo é reconhecível - mas tudo foi recriado com a liberdade de quem não copia, reinventa.

Tarsila simplifica a realidade até o essencial. As construções são blocos geométricos, sem detalhes desnecessários, sem sombras confusas. Os contornos são suaves, as curvas predominam sobre as arestas agudas. As montanhas têm perfis arredondados, como na paisagem brasileira que Tarsila amava pintar. A composição é organizada em faixas horizontais: embaixo, águas calmas; ao meio, a cidade e os barcos; em cima, morros e céu. Tudo em equilíbrio, serenidade, sem ruído nem confusão. O porto não é caótico: é belo, ordenado e acolhedor.

 Cor e Luz - O Brasil em Tons Puros


As cores são vibrantes, diretas, sem misturas suaves: rosa, azul, amarelo, vermelho, verde, branco. Não buscam imitar a natureza - buscam expressar a alegria e a intensidade do mundo. A luz é uniforme, sem hora marcada, como se brilhasse sempre assim. Tarsila aprendeu com os modernistas europeus a liberdade das cores - mas usou essa liberdade para pintar o brilho e a cor que ela via no Brasil. O rosa do navio, o azul da água, o verde das palmeiras e montanhas: tudo é intensidade, tudo é vida.


A obra é um exemplo perfeito do que Tarsila buscava: "ser moderna e brasileira" ao mesmo tempo. Ela aprendeu a geometria com o Cubismo e a liberdade das cores com o Fauvismo, mas em vez de copiar a Europa, usou esses instrumentos para pintar a nossa terra, com os nossos olhos. As palmeiras, os morros, o mar, a luz - tudo é reconhecivelmente brasileiro, mas visto de forma nova, simples e encantada.

Não há luta, não há drama. Há beleza, calma e harmonia. Tarsila mostra que o nosso porto, a nossa cidade, a nossa paisagem podem ser tão belos e dignos de arte quanto qualquer cenário europeu - e ainda mais coloridos, mais leves, mais felizes.

Tarsila pinta o porto não com o olhar de quem trabalha ou sofre, mas com o olhar de quem ama e se encanta. Barcos coloridos, prédios geométricos, morros azuis e palmeiras que emolduram tudo. Não é apenas um porto: é o Brasil retratado com simplicidade, alegria e imensa ternura. Uma paisagem que não precisa de sombras nem de drama para ser bela - basta que seja ela mesma.


Tarsila do Amaral,como em outras obras já comentadas neste blog,traz obras nitidamente cubistas, mas impregnadas de uma brasilidade que se manifesta sobretudo nas cores, que Carlos Drummond tão bem definiu: “O amarelo vivo, o rosa violáceo, o azul pureza, o verde cantante”. 

"O Porto" de 1953 após ter passado pela fase do Pau-Brasil,Antropofágico e Social;Tarsila retoma os anos 50 e  volta ao tema “pau brasil”. Participa em 1951 da I Bienal de São Paulo. Em 1963 tem sala especial na VII Bienal de São Paulo e no ano seguinte participação especial na XXXII Bienal de Veneza. Faleceu em São Paulo no dia 17 de janeiro de 1973.  "O PORTO" é um bom exemplo da retomada do Cubismo, pois entre as caracteríticas principais de Tarsila está o uso  de cores vivas, a influência do cubismo (uso de formas geométricas) e a abordagem de temas sociais, cotidianos e paisagens do Brasil.

Nesta  tela, de composição geometrizada ao máximo mas sem detrimento das figuras, com planos bem definidos e linhas simplificadas; a artista põe a mostra o que aprendera em seu 'serviço militar do cubismo' nos ateliês de Lhote, Gleizes e Léger, artistas que haviam se afastado do austero e cerebral cubismo de Picasso e Braque. 
Traço constante de sua obra, a presença da busca de uma cor verdadeiramente brasileira ou caipira : rosa e azul claros, ou o verde e amarelo do nosso colorido tropical, a cor é um dos elementos mais valorizados em sua composição.