sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

As Respigadoras (The Gleaners - 1857) - Jean-François Millet

The Gleaners, 1857, Jean-François Millet (French Realist Painter, 1814-1875), Oil on canvas, 83.5; 110 cm, Musée d’Orsay, Paris


As Respigadoras (The Gleaners) - uma das pinturas mais famosas  de Millet - retrata um direito antigo e sagrado dos camponeses: o de recolher, ao fim da colheita, as espigas que restaram no chão. É esse gesto humilde - recolher o que sobrou - que Millet eleva à condição de cena monumental.

No primeiro plano, três mulheres curvam-se sobre a terra. Duas debruçam-se inteiramente, mãos tocando o solo, em movimento repetido e silencioso; a terceira, de pé, amarra o feixe que ajuntou. Seus rostos quase não se veem - sombreados, de costas ou de perfil, sem traços definidos. Millet não idealiza: não nos oferece beleza convencional, nem expressões dramáticas. Mostra o trabalho como ele é - esforço, rotina, resignação. A pincelada é firme, as formas são sólidas, as roupas pesadas e escuras. A dignidade não está no rosto, está na postura, na entrega, na constância.

Ao fundo, em contraste de luz e cor, brilha a abundância: montanhas de trigo empilhadas, ceifeiros, cavalos, e, ao longe, o senhorio observando. Dois mundos na mesma tela: embaixo, na sombra, quem recolhe o resto; em cima, na luz, quem possui e supervisiona. A distância entre as mulheres curvadas e a riqueza ao fundo não é apenas espacial - é social.
A obra foi recebida com desconforto pela elite francesa de seu tempo. Ao dar protagonismo a camponesas anônimas, ao pintá-las sem embelezamento e com tal presença, Millet fazia algo mais que retratar o campo: dava visibilidade e respeito àqueles que a sociedade preferia ignorar. O trigo, colhido em enorme quantidade, está sendo empilhado e no canto superior direito vê-se o senhorio supervisionando o trabalho. Não há revolta expressa nas figuras - há aceitação. E é justamente essa quietude diante de um destino imutável que torna a obra ainda mais comovente e profunda.

As Respigadoras não é apenas uma pintura sobre trabalho. É uma obra sobre dignidade: a grandeza de quem, mesmo com pouco, ergue com honra o que a vida lhes deu.


 Ficha Técnica

  • Autor: Jean-François Millet (1814–1875)
  • Ano de conclusão: 1857
  • Técnica: Óleo sobre tela
  • Estilo: Realismo
  • Destaque: Uma das obras mais representativas da pintura rural francesa e marco do Realismo social



Quem foi MILLET? (fonte:Wikipedia)

Jean-François Millet (4 de Outubro de 1814 – 20 de Janeiro de 1875) Pintor romântico e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como percursor do realismo, pelas suas representações de trabalhadores rurais.Junto com Courbet, Millet foi um dos principais representantes do realismo europeu surgido em meados do século XIX. Sua obra foi uma resposta à estética romântica, de gostos um tanto orientais e exóticos, e deu forma à realidade circundante, sobretudo a das classes trabalhadoras.

 Suas obras sobre camponeses foram consideradas sentimentais para alguns, exageradamente piegas para outros, mas a verdade é que as obras de Millet em nenhum momento suscitaram indiferença. Na tepidez de seus ocres e marrons, no lirismo de sua luz, na magnificência e dignidade de suas figuras humanas, o pintor manifestava a integração do homem com a natureza. Alguns temas eram tratados talvez com um pouco mais de sentimentalismo do que outros. No entanto, é nos pequenos gestos que se pode descobrir a capacidade de observação deste grande pintor.

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