sábado, 18 de fevereiro de 2012

La tempestad (1508) - Giorgione. H.




Imagem: google.com

Giorgio Barbarelli da Castelfranco, conhecido como Giorgione (Castelfranco Veneto, c. 1477 - Veneza, fins de 1510), foi um dos grandes inovadores do Renascimento italiano. Morreu prematuramente, com cerca de 33 anos, deixando uma obra pequena em quantidade mas de imensa qualidade e influência, capaz de transformar os rumos da arte veneziana.

A Tempestade é considerada uma das primeiras paisagens com figuras da arte ocidental. Ainda que seu significado exato permaneça envolto em mistério, a maestria do pintor é inconfundível: aqui, a natureza deixa de ser simples cenário e passa a ser a verdadeira protagonista da cena.

À direita, sentada sobre pedras, vê-se uma mulher que amamenta a criança. Veste apenas uma túnica branca que lhe cobre parte do corpo. O seio descoberto, a barriga arredondada e o ato de amamentar sugerem fertilidade e maternidade. Para alguns intérpretes, ela representa a Caridade; para outros, a própria Virgem Maria com o Menino. Não demonstra medo nem preocupação com o que ocorre ao redor: parece imersa em sua própria quietude.

À esquerda, de pé junto a um pedestal de coluna em ruínas, um jovem observa a cena. Os estudiosos não chegam a consenso: uns veem nele um soldado, outros um pastor ou camponês. Sorrindo levemente, dirige o olhar à mulher, sem se mover. Raio-X revelou que, originalmente, Giorgione havia pintado ali uma outra figura feminina nua, que depois substituída pelo jovem. As ruínas ao fundo sugerem, antes que força, a fragilidade e a transitoriedade das obras humanas.

A paisagem é o coração da obra. Ao fundo, entre árvores altas e cerradas, avista-se uma cidade com torres e edifícios cortados por uma ponte que cruza um rio de águas escuras. Sobre tudo isso, o céu escurece, carregado de nuvens, e um relâmpago corta o firmamento. A tempestade está por chegar - e essa tensão atmosférica é o verdadeiro tema da pintura. As cores são suaves, dominadas por tons frios de azul e verde, com uma luz difusa e enevoada que envolve tudo como num sonho. A paisagem pode evocar a Arcádia, terra idealizada de harmonia entre homem e natureza.

O mais extraordinário é que nenhum dos personagens reage à tempestade iminente. O relâmpago brilha, a natureza se mostra poderosa - e eles permanecem serenos, alheios ao perigo, como protegidos por uma esfera intocável. Essa ausência de medo ou aflição diante das forças da natureza cria uma sensação de eternidade e mistério: a vida prossegue, tranquila e imutável, acima das perturbações do mundo.

Como sintetiza Alvarez Lopera, "A Tempestade resume toda a essência do giorgionismo". É uma obra que respira mistério: a pequena ponte sobre as águas escuras, a cidade que brilha sob o céu ameaçador, as nuvens rasgadas pelo clarão. Os personagens não se tocam, não se falam, não se olham com alarme - vivem cada um em seu mundo interior, envolvidos pela mesma atmosfera de sonho. A natureza e os seres humanos convivem em igualdade de importância, sem que um domine o outro. A revolução de Giorgione foi também técnica: segundo Vasari, ele pintava diretamente sobre a tela, sem desenhos ou esboços preliminares, entregando-se inteiramente à inspiração do momento.

Ficha Técnica

Autor: Giorgio Barbarelli da Castelfranco, conhecido como Giorgione (Castelfranco Veneto, c. 1477 — Veneza, fins de 1510)

Título: A Tempestade

Ano: c. 1506–1508

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 82 × 73 cm

Localização: Galeria da Academia, Veneza



Entenda melhor a obra assistindo o vídeo no link abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=ZF5einuU60Q&feature=channel